Lançamento Quadrinize online – A Revista de quem faz quadrinhos

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A revista eletrônica Quadrinize! está finalmente online.

Quando eu iniciei este blog, a proposta era que ele suprisse um pouco a necessidade de postar assuntos relacionados à criação de quadrinhos enquanto a Quadrinize ainda era apenas um projeto. Agora que ela já começa a andar com as próprias pernas (clichê ridículo), este bloguinho será uma espécie de “versão underground” da revista, onde postarei opiniões mais pessoais, críticais, downloads e sugestões. As postagens serão mais eventuais, mas em contrapartida, a Quadrinize terá duas atualizações semanais.

Acesse já a Quadrinize e fique em dia na leitura. Assine o RSS, siga o twitter, pois tem mais novidades muito boas por aí.

O herói Brasileiro BRASILEIRO!

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Certo… Então você quer criar um herói de quadrinhos brasileiro, para brasileiro curtir? Quer que o seu público seja amplo e se divirta com seu herói? Quer que os leitores entendam o que seu herói representa? Quer que eles se identifiquem com ele e se lembrem dele mesmo quando não estão lendo sua história em quadrinhos?

Se a resposta for “não” para essas perguntas, não precisa continuar lendo esse artigo. Mas se a resposta for “sim”, é preciso se certificar de que você não vai começar da forma errada.

Não que haja “certo” e “errado” quando se trata de criar personagens. Mas alguns aspectos são cruciais para determinar a possibilidade de sucesso ou fracasso total em alcançar os objetivos citados no primeiro parágrafo.

A primeira coisa que se deve ter em mente é que estamos no Brasil, escrevendo para brasileiros. Então precisamos nos desapegar totalmente da visão estrangeira de “herói” e “super-herói” que, por tanto tempo, está impregnada no inconsciente coletivo dos autores e nerds do nosso país. Não podemos mais querer reproduzir o que absorvemos dos heróis estadunidenses, japoneses, ingleses ou de onde for. Estadunidenses escrevem histórias voltadas para estadunidenses, japoneses escrevem para japoneses, assim por diante. Mas infelizmente somos um povo que escreve e cria coisas projetando outras culturas SEM conhecê-las devidamente.

O herói brasileiro precisa ser um HERÓI e precisa ser BRASILEIRO. Para isso não basta dar poderes a um fortão ou a uma siliconada e tascar-lhe uma bandeira do Brasil, jogando-os no meio da Amazônia para defender a selva. Isso pode parecer bem intencionado, mas não passa de panfletagem piegas e sem imaginação. Não basta trocar a roupa do seu herói gringo favorito por roupas verde-amarelo.

Se você criar um herói baseado nas características do Batman, talvez alguns leitores do Batman gostem. A maioria vai te considerar um plagiador, mas há a possibilidade de que alguns achem legal sua iniciativa. Se você criar um herói que carregue a marca do brasileiro e seu dia-a-dia, pode ser que consiga conquistar uma grande gama de leitores que se identificam com esse herói e seu universo.

Assim foi com o Homem-Aranha, que por sinal, revolucionou os quadrinhos nos EUA na época. Um nerd perdedor (a grande maioria dos leitores de quadrinhos são nerds ou esportistas-atléticos-garanhões?) que tinha uma vida normal de um nerd norte-americano, de repente se torna um herói, mas não sem trazer as devidas consequências para sua vida pessoal, familiar, amorosa e profissional.

Este sucesso fenomenal se deu porque os autores, muito sabiamente, compreenderam o público que consumia quadrinhos na época. Eles souberam lidar com os estereótipos e arquétipos tão amplamente que conquistaram leitores não só dos EUA, mas do mundo inteiro. Ainda assim, os quadrinhos eram voltados para os estadunidenses.

Minha proposta é que se encontre o herói brasileiro em meio ao seu próprio povo. Parem de se basear em seus heróis favoritos. Guardem suas HQs no armário e saia de casa. Olhe para as pessoas, para o lugar onde você vive. O herói brasileiro pode estar ao seu lado no ônibus, na sala de aula, no super-mercado. O herói brasileiro pode ser você…

Mas primeiro vamos entender o que é um herói. Ou melhor, o que faz um herói.

Um herói não é necessariamente super. O que faz dele um herói não são os super-poderes, são seus feitos, seus atos e suas escohas, sejam fantásticos ou apenas humanos. Sâo suas motivações de se importar com o mundo, com uma idéia ou uma pessoa a ponto de se sacrificar por aquilo que considera importante e que esteja ameaçado. Pode ser um super-poderoso impedindo uma invasão alienígena ou um homem sacrificando sua saúde no trabalho pesado para alimentar a família.

Ato heróico é sacrificar-se em prol de algo mais importante do que a si mesmo*.

Então, podemos concluir que o que faz o herói é a necessidade. Seja um perigo eminente ou uma privação. O importante aqui é estabelecer o elo, a motivação que fará uma pessoa comum se importar com a necessidade existente a ponto de se tornar o herói que vai resolver a parada.

Um herói nacional surge de uma necessidade nacional.

O Super-man foi criado em uma época em que os EUA atravessavam o pior momento de sua história. Ainda se sentia os efeitos da quebra da bolsa, a crise econômica era forte e a Segunda Guerra se aproximava inevitável. Era preciso um herói que resolvesse todas as necessidades daquele povo. Surgiu então dos céus um homem de aço, invulnerável, infalível, dando conta de todo tipo de super-vilão.

O mesmo aconteceu no Japão. Após a destruição de duas de suas principais cidades, surgiram heróis em filmes e quadrinhos capazes de derrotar qualquer ameaça, fosse tecnológica, alienígena ou biológica. O país estava seguro.

Tais acontecimentos afetaram o inconsciente coletivo desses povos.

Por isso o herói é aquilo que o povo precisa. E para se tornar herói, ele precisa se importar. O Homem-Aranha, quando recebeu os poderes, se importava apenas em realizar os próprios sonhos. Mas quando sentiu na pele a necessidade de um povo, decidiu lutar para protegê-lo.

Isso já basta se você quer um herói popular, mas descartável. Mas isso não é o suficiente para definir o herói brasileiro. Com um bom herói, a HQ nacional pode ganhar uma boa revista. Mas os quadrinhos precisam de mais do que apenas um herói para sobreviverem a longo prazo. Precisam de um mito. Assim, poderão surgir diversos heróis, em diversas formas e variações, baseados no mesmo mito.

Para se tornar um mito, o herói precisa fazer parte do inconsciente coletivo. Vamos usar como exemplo o herói japonês. A grande maioria desses heróis são baseados em conceitos milenares daquela cultura. Esses conceitos, por sua vez, são baseados em valores de honra, coragem, lealdade, fidelidade e bravura. São conceitos samurais.

O samurai é uma figura mitológica no Japão; isso não significa que esse mito nunca existiu, mas também não significa necessariamente que existiu. Nesse caso específico, os samurais existiram, mas o que realmente ficou no inconsciente coletivo foi uma imagem fantástica e idealista do samurai – a imagem que o povo japonês precisava para suprir suas necessidades.

Dessa forma, os autores têm a sua disposição um conceito, uma imagem, um mito no qual podem se basear seguramente, confiantes de que seu herói, estando dentro desse conceito, será aceito nessa cultura. E devido ao fato do mito do Samurai estar cada vez mais se tornando parte também do inconsciente coletivo do mundo ocidental, esses heróis, seus valores e feitos estão sendo aceitos deste lado do globo.

Mas e o herói brasileiro? E o mito nacional? Já o temos a nosso dispor ou precisamos construí-lo?

Alguns acreditam que os mitos estão nos folclores, outros defendem que nossos heróis estão no nosso passado, na figura de revolucionários como Tiradentes e Lampião. Eu não apóio e nem descarto essas possibilidades. Mas precisamos entender que os folclores vieram de uma cultura totalmente diversa da que vivemos hoje em dia (indígena e africana), portanto não se encaixam no mundo moderno e em suas necessidades. E os ditos heróis do passado não lutaram por algo que precisemos hoje em dia.

Então o que se pode fazer, se é que queremos usar essas duas opções, é reciclá-las de acordo com o Brasil de hoje, com o povo que está aí esperando por um herói para suas próprias necessidades. Podemos retirar os valores destas figuras que são aproveitáveis nos dias de hoje e criar um folclore moderno ou uma neorrevolução. O brasileiro nunca se importou com o passado, e não é com uma aula de História nacional em quadrinhos que ele vai passar a se importar. O que importa para o leitor é o Hoje, o Agora.

Observe os arquétipos à sua volta, os tipos de pessoas que existem aqui. São muitos. O herói brasileiro, para ser brasileiro, precisa ser um deles. E para ter um público amplo, precisa ser um brasileiro comum. Um brasileiro que pode ser eu ou você ou seu vizinho. Precisa enxergar o Brasil tal como ele é e se importar a ponto de realizar feitos heróicos.

Se isso será feito metaforica ou explicitamente, é com você. É aí que entra a idéia da história, assunto que foi tratado nos artigos anteriores. Não adianta usar temas que só a você interessa ou que de acordo com sua opinião, deveria ser de interesse de todo o povo. Isso resultará em fracasso imediato. Sua idéia precisa se basear naquilo que REALMENTE interessa ao povo brasileiro. Mas não seja óbvio demais a ponto de colocar carnaval e futebol. Existem coisas que o povo se interessa e nem sabe disso. Descubra. Depois, quando tiver compreendido e criado seu universo baseado no interesse e necessidade do povo, você insere o ingrediente final: o seu toque, sua identidade, sua mensagem.

E não se esqueça nunca de qual é seu público. São pessoas, seres humanos, brasileiros. Entender isso na sua essência faz toda a diferença.

*O conceito grego do “Herói” é de um ser situado entre o humano e o divino, capaz de realizar feitos épicos. No entanto, o próprio termo indica um protagonista de uma obra dramática ou de uma narrativa. No mundo moderno, o herói tem sido mostrado como uma pessoa que também possui suas falhas e fraquezas e, muitas vezes, não possui nenhuma capacidade sobre-humana, mas sim a disposição e motivação de realizar o ato heróico. Pode-se considerar, portanto, que um herói é um protagonista que supera suas condições humanas, seja física, mental ou espiritualmente, para realizar sua jornada em busca de seu objetivo final que, normalmente, será proteger aquilo que considera importante.

Mais um texto clássico resgatado do fundo do baú.

Roteiro para Quadrinhos Nacionais – Nada se Cria, Tudo se Vive!

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Eu não entendo o autor de quadrinho nacional. O cara cresce lendo quadrinhos, seja comics ou mangás e quer fazer sua HQ também. Até aí… tudo bem! Mas o sujeito quer fazer IGUAL ao seu gibizinho favorito. Quer dizer, igual não. Ele é criativo – muda os nomes das personagens e a cor das roupas! Ahá! Não contavam com a astúcia dele!

Nesse terceiro artigo da nossa série sobre quadrinho nacional (confira O Famigerado Mercado de Quadrinho Nacional e Criando um Herói para Quadrinhos Brasileiros) quero abordar um pouco mais a fundo a questão da criação.

Como foi dito anteriormente, a solução para um mercado está na criação própria voltada para brasileiros, e a idéia é o embrião da criação. Mas de onde tirar idéias que prestem?

Vou usar o exemplo dos comediantes brasileiros. Eu não sou um grande apreciador do humor, mas devo admitir que alguns humoristas brazucas me fazem rir muito. Nós brasileiros temos a fama de fazer piada da nossa própria desgraça. Não que isso seja um dom, mas, para mim, isso indica que o humorista está antenado com a realidade do Brasil. É piada de todo tipo de coisa do nosso cotidiano: política, futebol, preconceito, pobreza, política, peruas, transporte alternativo, adolescentes, escolas, política, religião, carnaval, apresentadores de programa, enchentes, política, músicos, política… a lista quase não tem fim. E o Brasileiro ri, não apenas porque a piada é boa, mas porque é a própria realidade brasileira. Como diria a Dona Edith: – “é ou num é ou num é? É!!!”

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Dona Edith é um ótimo exemplo do que estou falando. É um quadro da peça de Teatro Terça Insana que brinca com a pobreza na favela. Perceba bem: alguém que não sabe o que é uma favela, provavelmente não vai rir nem entender metade das piadas do quadro. Alguns quadros da Terça Insana não são para qualquer um rir. Falando nisso, sabe aquela fama de que piada de norte-americano não tem graça? Por que será? É óbvio que é porque não estamos contextualizados ao tema da piada em questão.

A idéia é simples assim… Sua idéia tem que partir de algo de fácil reconhecimento do seu leitor. Ele vai ler aquilo e saber do que se trata, assim como um japonês que lê um mangá com estudantes com roupas de marinheiro que usam o ki e tem vergonha de pegar na mão da namorada em público.

Quando um humorista brasileiro faz uma personagem satirizando uma situação ou uma classe ou até mesmo uma pessoa pública, ele não está sendo preconceituoso, como algumas pessoas pensam. Ele está rindo de SI MESMO. Quem assiste e ri, também ri de si mesmo, estão todos rindo de si mesmos porque somos nós que fazemos o país ser essa grande piada, seja com nosso conformismo, seja com nossos votos, nossa omissão ou nossa ignorância. As pessoas riem porque no fundo dizem “é verdade, a coisa é assim mesmo”. Mas o que o humorista está fazendo? Um estereótipo. Mas não um estereótipo universal, mas brasileiro, para brasileiro entender. Ele estereotipa o pobre, o favelado, o político, o adolescente, o rico. É o que o pessoal da Terça Insana faz. Então ele brinca com o estereótipo, desconstrói, cria situações com ele e apenas deixa a personagem agir naturalmente, porque a personagem já tem um comportamento e objetivos definidos. E as possibilidades são quase infinitas.

Assista alguns vídeos da Terça Insana e faça uma lista dos estereótipos que ali são representados. Depois marque com um X os que você conhece bem, o tipo com o qual você convive ou já conviveu. Então pegue a personagem cujo estereótipo você mais conheça e crie uma situação para ela em outro gênero – terror, fantasia, romance, drama. Pegue a dona Edith e jogue-a num planeta de fantasia estilo El Hazard (mas coloque coisas interessantes para o brasileiro, como um mundo onde tudo é cercado de cerveja, praia, ou a total ausência dessas coisas e brinque com isso) e faça a personagem ser ela mesma nesse mundo. Como uma líder comunitária semi-analfabeta que fala “incrontá” ao invés de “encontrar” se sairia se tivesse que salvar um mundo fantástico? E se junto com a Dona Edith estivessem a Irmã Selma, a Leila e a Adolescente? Claro que aí você vai ser tentado a fazer uma comédia, mas faça uma comédia com a fantasia, porque esse é o tema. Ou faça um terror e explore as possibilidades. A irmã Selma é de botar medo, porque ela reza para que algo aconteça a alguém… “E acontece”! Ou uma versão Big Brother do mundo de Mojo. Mas o mais importante é que isso estará voltado para o brasileiro e suas necessidades e vontades. Se a personagem for bem construída e autêntica, o leitor será cativado, vai querer saber o que acontecerá com a personagem no final e vai se importar com ela.

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Claro que não é só de personagem que vive uma HQ. É preciso ter uma estória. E nada melhor do que simplificar as coisas. Hoje é muito comum cenários e elementos complexos envolvendo física quântica, magia do caos e etc; mas toda boa estória parte, em sua concepção inicial, de uma premissa simples, seja um sujeito comum que recebe poderes ao ser picado por uma aranha ou seja um moleque traumatizado pela morte dos pais que quer vencer o crime. Simples e próximo do leitor. A partir daí, coloque suas pirações, complexidades e o que mais achar útil, mas a premissa deve ser sempre o mais simples possível. Brinque com as possibilidades e os rumos que o mundo está tomando. Imagine o malandrão da favela recebendo super-poderes por causa de uma pedra de crack mofada! E o poder que ele receberia é o de transformar a realidade de uma pessoa em uma viagem alucinógena!

Mas tudo isso é exemplo. Você não vai fazer suas HQs baseados em personagens humorísticos (e se fizer e for processado por plágio, nem vem me culpar). Você vai observar o mundo a sua volta. Vai observar as pessoas na rua, no trânsito, no trabalho, na escola. Vai viver! Conversar com alguém na fila do banco. Observar como o tipo de pessoa que você quer retratar se veste, age ou se comporta na sociedade. Olhar os objetos que carrega e tentar imaginar como é a vida daquela pessoa, do que ela deve gostar, onde trabalha, apenas com as informações visuais que tem ali. Você vai conhecer pessoas porque não quer fazer personagens vagos e rasos, que não representem em nada o grupo que você escolheu. Não se prenda ao visual. Vá além! Vá à essência das pessoas e suas necessidades, sonhos específicos, carências e objetivos. A identificação não precisa ser apenas através da personalidade ou do visual, mas também do que as pessoas precisam. O simples fato de seus personagens serem humanos em busca de algo, seja o propósito de viver ou o carro do ano,  já é um fator de identificação praticamente universal. Vá mais a fundo na alma do ser humano e você encontrará assunto pra estórias que não acabarão mais. Depois afunile o fator de identificação ao grupo de pessoas a quem você está se dirigindo – sem esquecer que são brasileiros que, na maioria esmagadora, não querem saber de uniformes de marinheiro nem heróis de collant com codinomes ridículos.

Depois de você criar a ambientação (esse assunto será tratado melhor futuramente), o enredo virá da interação desses personagens entre si e essa ambientação é a reação deles, suas escolhas e a conseqüência dessas escolhas que farão a sua estória.

Mas o mais importante de tudo é que não vai adiantar nada disso se sua idéia for vazia, se sua estória for apenas mais uma entre tantas. E é aí que você vai ser diferente de um produto fabricado feito APENAS usando a identificação das personagens para manipular e comover o leitor e prendê-lo ao produto, fazendo-o querer ser o que é mostrado em tais estórias. Este pretenso autor que escreve a vocês e a ComicsLivres repudia tal atitude que transforma as HQs em subprodutos feitos visando única e exclusivamente a devoção do leitor cativado ao personagem (uma marca), o que lhe rouba a identidade e a capacidade de agir por si próprio. Estórias, assim como qualquer outra mídia, feita com tais ferramentas, são poderosas para interferir na vida das pessoas. Você está lidando com gente, pessoas de verdade, que você não fará idéia de como ela vai reagir aos seus personagens. Portanto, importe-se com seu leitor e tenha algo a dizer. Não um discurso, nem um pensamento pronto e pré-formatado sobre qualquer coisa. Mas tenha algo a dizer que o faça pensar, que o faça questionar o mundo em que vive e questionar a si mesmo como parte desse mundo. Não é isso que o nosso humor brasileiro faz? Ao mesmo tempo em que faz rir dos políticos, das loiras burras e das favelas, está dando um enorme grito pedindo para que você olhe como as coisas estão e faça algo a respeito. Pena que as pessoas se contentem em se entreter e deitar a cabeça no travesseiro.

Por isso, antes de mais nada, viva! Respire ares novos, conheça lugares, olhe para as pessoas como você nunca olhou antes. Faça algo inusitado, perceba o mundo e suas maluquices. Só assim você terá sua visão única, peculiar sobre o mundo e as pessoas e, como na profissão do fotógrafo, é a sua visão, seu modo de olhar as coisas, que fará toda a diferença no final. É daí que virão as grandes idéias e as boas eistórias.

Imagens retiradas da apresentação da Peça Teatral “Terça Insana”. Todos os direitos reservados, e tudo e tal.

Mais um velho artigo resgatado do pó e das traças.

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O Famigerado Mercado de Quadrinho Nacional*

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Ultimamente muito se tem discutido sobre (a falta de) mercado de quadrinhos nacionais. Fala-se sobre vários problemas sob diversas perspectivas. Uns apontam a falta de oportunidade nas editoras; outros alegam que não há desenhistas e roteristas de nível profissional com qualidade suficiente para causar interesse em um editor. Outros atacam os leitores, por comprarem muito material estrangeiro e depreciarem o artista nacional, por não se interessar em comprar fanzines, por dizer que as HQs nacional são ruins.

Mas afinal, onde está o verdadeiro problema dos quadrinhos nacionais?

Bem, vamos analisar os argumentos mais comuns. O que vem logo de cara é a questão das editoras. “Eles não se interessam”, choramingam os quadrinheiros, sem sequer ir à luta porque nem sabem por onde começar. Mas isso não é bem verdade. Há editoras interessadas em bom material nacional, mas elas encontram problemas como falta de profissionalismo, prazos não cumpridos, baixa qualidade… ou seja, encontrar algo que valha a pena investir com a garantia de um bom retorno é difícil. Também temos que parar de pensar em editoras grandes e olhar para as pequenas. A Conrad já publicou brasileiros, assim como a JBC e a Editora On Line (que, apesar do nome, imprime em papel), mas há outras menores que se interessariam se vissem um material que valesse a pena. Mas esse material parece não existir.

Também precisamos mudar essa mentalidade de que quadrinhos PRECISAM ser impressos. A web-comic veio pra ficar, e a maioria dos leitores de quadrinhos (por maioria entenda “adolescentes”) já nasceu acostumada a ler scans na tela do monitor. Eles não são como o pessoal mais velho que reclama: “eu compro no papel porque sou contra a pirataria e ler no monitor dá dor de cabeça”. Pra essa gurizada não faz muita diferença. E isso se tornará cada vez mais comum. Vivemos em uma época em que várias mídias surgem a toda hora, possibilitando diversas formas de se distribuir uma HQ em formatos diferentes e inovadores (no Japão vende-se mangá até via celular, coisa que só agora tá chegando aqui). A própria linguagem das HQs está prestes a evoluir para algo que não haverá mais retorno – ou você entra na nova onda, ou será um ultrapassado escrevendo para ultrapassados. A web também permite comercializar as HQs e produtos derivados de forma rápida, prática e segura, com a vantagem de que você é o editor, autor, planejador e marketeiro. Ou seja, não dá mais pra colocar a culpa nos editores. Quem quer, faz. Quem é bom, faz bem feito.

Depois vem a crítica aos desenhistas profissionais (e amadores) que temos. Há quem diga que bons desenhistas brasileiros são raros, e os poucos que existem já estão trabalhando no exterior. Ora, isso não tem cabimento! Basta uma boa garimpada no Deviant Art que você encontra gente boa (no meio de muito lixo) sendo que a maioria dos “talentos brutos” precisa apenas de uma boa orientação de know how ou uma atualizada, porque é muito fácil você treinar anos e seu estilo acabar sendo ultrapassado, antiquado demais pro mercado de hoje, nesse mundo em que tudo evolui, PRINCIPALMENTE a linguagem visual. Você também pode olhar a publicidade brasileira, uma das melhores do mundo, recheada de artistas – desde cartunistas a artistas de 3D – que, em alguns casos, sonhavam em ser desenhista de quadrinhos, mas não puderam realizar o sonho e foram ganhar a vida na propaganda. E, claro, tem a galera que está trampando no exterior. “Estão ganhando a vida porque no Brasil desenhista não tem vez”, dizem os defensores. Mas a realidade não é bem essa. Mas calma, já chegamos lá.

Então, menciona-se os roteiristas. “Não temos roteiros originais, só cópias”, dizem. Se você é um leitor de fanzines, provavelmente você será tentado a acreditar nisso, mas olhe para outros lugares – o cinema nacional, embora meio capenga, sempre teve seus bons momentos. O teatro é o refúgio dos pretensos escritores, e temos por aqui bons exemplos. Estariam também os candidatos a roteiristas de HQs migrando para outras formas de entretenimento mais rentáveis? De qualquer forma, fica óbvio que o brasileiro não tem uma doença genética que o torna incapaz de escrever um bom roteiro. Mas também é óbvio que os grandes inimigos do roteirista de quadrinhos tupiniquim são a preguiça e o ego. A preguiça porque ela impede o sujeito de estudar, ir atrás de informação sobre o ofício, de observar o mundo e o que nele acontece, de viver e captar a vida com um olhar único, que é o que torna um roteiro valer a pena. O ego porque, já que o cara já é “bom” o suficiente pra arrancar elogios dos amigos, pra que encarar a preguiça e fazer alguma coisa da lista acima?

Mas o potencial está aí! Eu vejo em vários lugares pessoas que escrevem estórias que, apesar de recheadas de clichês, são bem conduzidas. Ou vice-versa. Mas ela não vai atrás de se aperfeiçoar. E quando vai, se esbarra no maior problema de todos, que é o que realmente atravanca os quadrinhos nacionais:

Criação!

A criação é tudo. E a idéia é o embrião da criação. O grande problema é que o quadrinhista nacional não quer saber de criar. Ou quando quer, não sabe e não reconhece isso pra melhorar. Criam coisas que não funcionam porque vem tudo de um mundo particular, uma visão fechada e pessoal sobre uma vida que não é comum, não existe identificação com o leitor. Ou criam “cópias autenticas” de material gringo. Criemos, pois.

Tudo parte de uma boa idéia; sem isso, desista. Não escreva. A idéia irá definir se sua criação será válida ou não, se resultará em uma estória que vale a pena ler ou não. Não é a técnica, a narrativa, muito menos o desenho. É a bendita idéia. E a partir da idéia vêm personagens, vem ambientação, vem enredo, vem o seu universo. E é aí que entra a sua capacidade de criar algo que cativa as pessoas, que prende a atenção e o interesse do leitor no que vai acontecer com seus personagens. Essa é a magia dos quadrinhos.

Para entender melhor a idéia, vamos pegar o exemplo dos ingleses. Os caras, lá pelo início da década de 80, como Alan Moore, saíram da Inglaterra atrás do sonho de trabalhar com heróis famosos como Super-Man. Moore por exemplo recebeu o Monstro do Pântano pra reciclar o personagem e o que ele fez? OUSOU, balançou as estruturas, ignorou as fórmulas e os modelos pré-estabelecidos, os conceitos e preceitos dos quadrinhos americanos que já estavam virando uma caretice sem tamanho. O mais importante é que, uma vez garantido seu cantinho no mercado, ele CRIOU suas próprias coisas. Ele já vinha fazendo isso na Inglaterra, mas quando criou Watchmen, ele garantiu seu lugar ao sol com um único produto. Se ele ficasse apenas escrevendo Monstro do Pântano e Super-Homem, rapidinho alguém ia escrever esses personagens melhor que ele (sim, isso é possível, principalmente no caso da DC que sempre teve um certo receio das loucuras do Moore com os personagens mainstream) e ele iria ficar só nisso de procurar um título pra trabalhar. Mas ele criou seu próprio título, e criou bem o suficiente pra ser lido. Outro exemplo é Stan Lee. Não é a toa que a Marvel era conhecida como “Casa das Idéias”. O homem criou seus personagens, encontrou o que ele poderia falar para os leitores DAQUELA ÉPOCA, NAQUELE PAÍS e isso dura até hoje, com incontáveis produtos licenciados. Criações próprias. Neil Gaiman criou Sandman e vive até hoje garantido por causa de uma série que nem durou tanto tempo.

Claro que não é apenas criar. Estamos falando de alguns dos maiores representantes das HQs ocidentais. Mas você não precisa ter a “genialidade” desses autores. Precisa apenas seguir os passos, porque o caminho já foi trilhado. É olhar para o mundo tal qual ele é, com seus olhos, não com os óculos que a mídia, a TV e os próprios quadrinhos te dão, mas sua própria visão. Olhar pras pessoas que vão ler e fazer parte de suas estórias – brasileiros; seu vizinho, o padeiro, o motorista do onibus, o nerd da escola (principalmente o nerd da escola). A partir disso, você cria seus personagens – é de personagens que uma estória é feita. INVISTA neles, alimente-os, cuide deles, dê-lhes vida, dê-lhes um passado, um objetivo, um sonho específico, até que ele possa existir na mente do leitor como alguem próximo. Poderia ser o vizinho. Poderia ser ele mesmo. Crie ambientação, não um simples cenário genérico. Crie a cidade onde os personagens moram. Como o lugar influencia as pessoas? Qual é o clima? Que tipo de gente habita ali? Faça o lugar ser real, assim como os personagens.

No Brasil tem muita gente desenhando aqui e ali, mas poucos estão criando. Não precisa criar aqui no Brasil. Se o Deodato é bem recebido nos EUA, por que ele não cria as coisas dele por lá? O emprego na Marvel/DC dura pouco, mas a boa criação é eterna. No Brasil existe um bom exemplo disso. Maurício de Sousa. Ele não inova (nem mesmo quando publica “mangá”), é careta, mas por que ele está aí até hoje? Ele tem centenas de personagens, talvez isso seja uma boa pista.

Temos também os péssimos exemplos. Aos montes. Não preciso citar, mas criações que limitam-se a clonar mulheres peitudas e mutantes bombados amenicanizados segurando uma bandeira do Brasil, como quem quer dizer “parecemos heróis de HQs americanas mas somos brasileiros com orgulho” NÃO são válidas, assim como ninjas coloridos, samurais ou neguinho de armadura que grita o nome do golpe. Isso beira o plágio descarado. Brasileiro não se liga em chakra nem em lutas orientais (estou falando da massa, e não dos nerds como você e eu). Precisamos encontrar o que cativa, o que ganha o publico brasileiro em geral. Que tipo de HQ venderia como pão nas bancas (para os que ainda acreditam em bancas), livrarias ou internet?

A grande verdade é que nessa época que vivemos, com muita produção amadora e mercado inexistente, nós, os criadores das próximas estórias, temos a oportunidade de lançar os fundamentos dos quadrinhos nacionais. Muita gente me diz que muito papo na net não leva a nada, que devemos é produzir e produzir. Eu discordo! Acredito que uma boa troca de informações e idéias gera um (in)consciente coletivo que poderá dar força e formato ao que todos tentaram e nunca conseguiram: criar o autêntico e funcional herói brasileiro.

Bom, já que entendemos que o segredo está na criação (e se não entendeu, “pobrema”), nos próximos artigos procurarei explorar como criar algo que preste. Até lá, tentarei também aprender como escrever um texto mais organizado.

*Publicado originalmente por mim no Comics Livres em 20/02/2009. Revisado e atualizado.

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