Lançamento Quadrinize online – A Revista de quem faz quadrinhos

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A revista eletrônica Quadrinize! está finalmente online.

Quando eu iniciei este blog, a proposta era que ele suprisse um pouco a necessidade de postar assuntos relacionados à criação de quadrinhos enquanto a Quadrinize ainda era apenas um projeto. Agora que ela já começa a andar com as próprias pernas (clichê ridículo), este bloguinho será uma espécie de “versão underground” da revista, onde postarei opiniões mais pessoais, críticais, downloads e sugestões. As postagens serão mais eventuais, mas em contrapartida, a Quadrinize terá duas atualizações semanais.

Acesse já a Quadrinize e fique em dia na leitura. Assine o RSS, siga o twitter, pois tem mais novidades muito boas por aí.

Fazer HQ passo-a-passo

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Ontem, por motivos de falha técnica (coisa burra e ignorante operando o blog) o post foi uma repetição da semana passada. Retifico-me trazendo o texto que deveria ter sido postado. Texto do Ricardo S. Tayra (post original). Como disse antes, ele coloca em termos práticos o que tenho dito em termos técnicos.

FAZER HQ PASSO-A-PASSO

A grosso modo, o processo de criação de uma história em quadrinhos é bastante similar ao processo do cinema.

Basicamente, é composto por etapas de pré-produção, produção e pós-produção. Isso sem mencionar os vários pontos em comum existentes entre essas duas linguagens, algo já falado à exaustão por aficcionados e especialistas das duas artes.

Hoje falaremos da pré-produção e de sua etapa mais importante: o roteiro.

1. A pré-produção em um HQ começa sempre pelo tema ou idéia principal: do que vai tratar a nossa história? O que vamos contar ao nosso leitor? Nessa etapa do processo criativo, a resposta para essas perguntas não deve ultrapassar uma linha. Por exemplo:

Citação:
Um homem que se apaixona por uma mulher e descobre que ela é sua irmã desaparecida há 25 anos.

Pronto. Tem-se, aí, o cerne da história.

2. A partir daí, começa o trabalho propriamente dito: contar, em linhas gerais (gerais mesmo), a sua história. Narrar, suscintamente, o que vai acontecer; dar um início, um princípio e um fim para a trama. Se for importante para o enredo, a ambientação pode ser escolhida nessa etapa do processo: onde vai se passar a história; em que época; por que tipo de pessoas os personagens principais estarão rodeados.
Depois, é necessário que você, roteirista, conheça os seus personagens. Eles devem ser tratados como pessoas reais para que a estória seja verossímel; e, para tratá-los como pessoas reais, é preciso que você os conheça melhor do que a si mesmo. Como fazer isso?

2. Escreva uma mini-historinha para cada um dos seus personagens principais, como uma espécie de “fichamento”. Em uma folha separada para cada um, escreva seu nome completo, onde nasceu, que idade tem no momento em que sua história será contada, suas habilidades, suas aspirações, suas principais características e seu temperamento. Tudo isso lhe dará elementos para escrever; que tipo de diálogo fica melhor com que personagem; que atitude, etc. Assim, você saberá facilmente como seu personagem reagirá a uma determinada situação, por exemplo.

4. Depois, vem o roteiro propriamente dito. Você pega o mini-texto que escreveu na etapa número 2 e detalha; reescreve preenchendo todas as lacunas, colocando os diálogos, os lugares, os ângulos e os enquadramentos, baseado nas informações fornecidas nas etapas anteriores.

Lembre-se, isso não é um modelo rígido. Cada roteirista prefere trabalhar de um jeito. Às vezes, é bom inverter as etapas; por exemplo, fazendo o fichamento dos personagens antes de tudo, ou começar pela ambientação da história. Depende de como a idéia nasce.

O importante de se lembrar nessa etapa é que toda a pesquisa (histórica, geográfica, cultural, científica e psicológica) que vai embasar e dar verossimilhança ao enredo deve ser feita durante a pré-produção. É importante ter esses dados sempre à mão para consulta enquanto estiver escrevendo.

5 Dicas para escrever um Roteiro de Quadrinhos

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Certo, sei que estou devendo atualizações mais frequentes no Abismo, mas é por uma boa causa. Estive trabalhando duro para tirar o atraso de outros projetos que conhecerão em breve.

Enquanto isso, vou cometer mais um ctrl + C, ctrl + V. Boas dicas para iniciantes escritas por Ricardo S. Tayra.

5 Dicas para escrever um Roteiro de Quadrinhos

1) Escreva

Escreva muito. Pare de falar a respeito de escrever e escreva. Escreva tudo o que der na telha na hora. Pode não vir a fazer sentido algum no final, mas faz parte do processo de criação.

Não tem desculpa: você pode pegar uma folha simples de papel e desandar a escrever. Mas para quem tem acesso a computador, mais fácil ainda: vá jogando tudo num arquivo. Na hora de produzir o roteiro pra valer mesmo, você pode salvar o tal arquivo com outro nome: é mais fácil cortar, reescrever, reorganizar, editar, enfim… Mas isso só é possível se já tiver algo escrito.

2) Organize as idéias

Muitas delas são bacanas, mas não funcionam numa história só (vale a pena guardar para outras). Pense que as coisas têm que fazer sentido – ações têm conseqüências, como na vida real, e espera-se que exista começo, meio e fim. Mesmo que a HQ seja contada fora de ordem cronológica. Ora, você não aprendeu nada mesmo quando estudou dissertação na escola?

Vale apelar para as perguntas básicas dos jornalistas: Quem? O quê? Como? Por quê? Quando? Onde? Enquanto você elabora respostas para essas perguntas, vai delineando a história na sua cabeça (e no papel).

3) Não escreva para si mesmo

Esta dica vale especialmente quando o roteiro será desenhado por outra pessoa (embora acredite que valha mesmo quando se desenha uma história própria, para não ter que confiar na memória).

Um roteiro é uma ferramenta de trabalho. Você deve expor de maneira clara, o mais objetivamente possível, o que pretende que seja desenhado. O desenhista será seu primeiro leitor. Se não conseguir capturar o interesse dele, quem dirá dos demais? Ele ainda terá uma série de decisões a tomar para desenhar (acompanhe um profissional decidindo sobre o que colocar numa página e verá como funciona), então não seja preguiçoso e dê um mínimo de detalhe sobre as cenas: se não, ele terá que “adivinhar” o que passou por sua cabeça.

E escreva corretamente em língua portuguesa, por favor: escrever bem só se aprende com bastante prática e boa leitura. Um roteiro com erros crassos de português perde total credibilidade e o interesse do leitor.

4) Não fale sobre uma ação: mostre-a.

Você pode ser desenhista ou não, mas é importante pensar que o que você está escrevendo vai virar imagens. Ao invés de colocar uma caixa de narração explicando que um personagem é malvado, crie uma situação na qual ele possa demonstrar sua malvadeza. Uma imagem não vale mais que mil palavras?

Quanto mais importante a ação, mais detalhes você tem que incluir no roteiro, que servirá como orientação para o desenhista. Se uma expressão de um personagem é importante, num determinado momento, peça um close (isso, como em linguagem cinematográfica). Se o importante é mostrar onde ele está, marque um plano geral do local.

Vale lembrar que, num roteiro, você identifica o texto que deve entrar no quadrinho (nos balões, ou nos quadros de narração). Este texto sempre deve ser complementar à ação. Na maioria das vezes será ridículo você colocar um quadro com a narração “Ele desferiu um soco no queixo do adversário” enquanto o que se vê é um sujeito dando um soco no queixo de outro.

5) O tempo dos quadrinhos é um caso à parte

O tempo nos quadrinhos é determinado por fatores como o tamanho e detalhamento de um desenho e pelo espaço de requadro (o intervalo entre um quadrinho e outro).

Você pode narrar ações simultâneas intercalando quadros. Você pode colocar num quadro ou numa seqüência de quadros, um desenho que mostre o tempo daquela ação (como uma seqüência que mostra um sujeito em sua cama do ato de dormir até o de acordar, enquanto no fundo do quadro vemos uma janela mostrando o sol que vai raiando).

E existe também o tempo de leitura: um quadro de página inteira pode ser lido rapidamente ou não, dependendo do tamanho do desenho e dos detalhes contidos nele. É uma opção que se faz. Mas lembre-se: por mais que o roteirista e desenhista se esforcem para colocar “amarras” no tempo da HQ, o leitor ainda vai querer determinar seu próprio tempo de leitura e pode até subverter a ordem de leitura, pulando páginas (é a parte mais interativa do negócio). Um bom roteiro ajuda o leitor a mergulhar na história como ela foi concebida.

Para mais informações, textos e guias sobre roteiros de quadrinhos, personagens, ambientação e muito mais, acesse www.quadrinize.com

Como Começar uma História

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Escrever histórias que demoram a decolar é muito comum entre os roteiristas iniciantes – e até entre os mais experientes. Existem inúmeros fanzines em que os autores gastam todo o primeiro capítulo com o que chamam de “apresentação de personagens“. As vezes, até dois, três capítulos se passam, e nada de história. E quando pergunto onde está a trama, a resposta é quase sempre a mesma: “Calma, isso foi só o começo. Agora é que a história começa mesmo!”

Isso é uma má condução de cenas. É muito importante que o leitor saiba sobre o que se trata a história logo no início, no máximo até a metade do primeiro capítulo. Claro que as primeiras páginas normalmente mostram os personagens em seu cotidiano, mostram onde a história é ambientada, situa o leitor. Os que aprenderam a dividir o roteiro no esquema de três ou cinco atos sabem que o primeiro ato é dedicado a isso. Mas se for APENAS isso, não tem valor algum e se torna obsoleto.

Sim, o leitor precisa ser situado na história e entender quem são os personagens. Mas ninguém quer saber de uma cena onde nada significante aconteça. É chato, tedioso e sem propósito.

O objetivo de uma história é mostrar o drama humano, seja em forma de comédia, ação, terror, aventura ou romance. Por drama, entende-se dilemas e conflitos. Uma história sem essas duas coisas não tem razão de existir.

Imagine um protaginista que consegue tudo o que quer sem obstáculos e nunca precisa fazer uma difícil escolha entre duas coisas ao seu alcançe. Que tipo de história seria essa? É exatamente a história que escrevem em muitos primeiros atos por aí.

Não importa se depois a história melhora e os dramas aparecem. A essa altura, você provavelmente já perdeu o interesse do leitor e ele já escolheu outra coisa para ler – ainda mais se tratando de zines.

Então, comofas?

1-Durante toda o primeiro ato, ou “cenas de apresentação”, é necessário incluir em TODAS as cenas um objetivo para o personagem e pequenos conflitos, coisas que o impedem de atingir esses objetivos. Se em sua cena não há, reescreva ou delete.

2-Após o que você considera suficiente para apresentação, inclua o quanto antes o ponto de virada e suas consequencias, ainda no primeiro capítulo, para sabermos do que a história vai tratar durante todas as próximas cenas. O leitor precisa saber disso, precisa de uma garantia de que está lendo algo que ele vai gostar do iníco ao fim.

Ex de um péssimo começo de história: Fulano acorda, se arruma para ir à escola, toma o café da manhã, se despede de seus pais. Pega o ônibus, desce em frente ao colégio, entra pelo portão. Cumprimenta seus amigos, entra na sala de aula, senta-se em seu lugar, o primeiro da fila. Então entra o professor e o cumprimenta.

Se divertiu lendo isso? Ou não via a hora de acontecer alguma coisa interessante ou acabar logo? De que se trata a história? O que a faz valer a pena?

Agora que tal isto: Fulano acorda já atrasado para a aula. Se arruma, mas não consegue encontrar nenhum par de meias limpas em meio à bagunça. Usa meias de pares diferentes ou vai sem? Escolhe usar meias diferentes. Corre para tomar o café da manhã, mas sua mãe já o aguarda para dar uma bola bronca por ter sido acordada às quatro da manhã com a voz dele no TeamSpeak liderando seu clã de WoW. Ele adora sua mãe, mas nessas horas ele se irrita e grita com ela. Perde a fome e sai nervoso. Perde o ônibus, mas por sorte uma colega, por quem ele é apaixonado, passa de bicicleta e dá carona. Ambos chegam atrasados e ficam do lado de fora. Resolvem pular o muro, são pegos e ganham suspensão.

Sempre o personagem quer alguma coisa, mesmo que seja beber água, e sempre aparece um obstáculo.

Isso pode ser um monte de clichê, mas há dois pontos a favor de usar essa sequencia. A primeira, e mais óbvia, é que ela é infinitamente mais interessante que a anterior. E a segunda é que isso retrata a vida da maioria dos estudantes. E isso é o mais importante de uma história, retratar a vida como ela é, como diria Nelson Rodrigues. Com isso os leitores se identificam com os personagens e esse é o segredo para que eles amem sua história.

Claro, essa foi uma opção humorística. Você pode trocar por conflitos dramáticos, de ação, qualquer coisa de acordo com o gênero da história.

Novamente, se você realmente quer páginas de apresentação, você precisa definir bem o primeiro grande conflito, ou a primeira virada de ato, que é o que vai acabar com a vida normal do protagonista e inseri-lo na aventura. De preferencia, essa virada deve acontecer ainda no primeiro capítulo, com tempo de mostrar as consequencias dela.

Ex: Depois pegar suspensão do colégio, os dois amigos saem e decidem não levar a carta do diretor a seus pais. Vão até o fliperama (é, na minha época de estudante isso ainda existia, me deixe ser saudosista) e gastam todo o dinheiro do lanche em fichas sem saber que estão sendo observados por uma figura que aparece nas sombras. Após perderem a última ficha, o protagonista se revolta, deixando somar toda a sua fúria de um dia inteiro de fracasso e destroi a máquina de fliper com tanta raiva que assusta a todos. A sombra que o observava se manifesta a todos e entra na cabeça do protagonista, transformando-o no terrível Fúria. Furioso, ele sai destruindo tudo, mas quando sua amiga lhe implora para parar e o abraça, ele se tranquiliza e volta ao normal.

Percebem como usei todas as cenas anteriores da apresentação de personagem para culminar todos os problemas do dia-a-dia dele em um momento crucial que mudou sua vida para sempre? Isso é ótimo para o leitor, pois é uma recompensa pelas páginas de introdução. Notem também como antecipei o ponto de virada mostrando a sombra seguindo o protagonista. Ainda que houvesse mais uma ou duas cenas de blablabla, o leitor já podia perceber que havia algo errado, algo estava prestes a acontecer, isso faz crescer a expectativa.

Também incluí uma consequencia para a virada. Ele sai quebrando tudo e sua amiga, por quem ele é secretamente apaixonado, o faz voltar ao normal. Isso não é o fim da história, é o fim do ato. O Fulano ainda tem o Fúria dentro de sua mente, e ele irá retornar. É uma boa forma de terminar o primeiro capítulo.

Há outras opções menos convencionais. Você pode colocar a virada bem mais cedo. Nesse caso, a própria virada pode ser usada para quebrar a calmaria e falta de conflitos: Fulano acorda na hora de ir à escola. Ele é um nerd e a perfeição faz parte de sua vida. Se arruma, toma o café da manhã, se despede dos pais e ao sair pela porta descobre que sua casa está flutuando no vácuo do espaço sideral.

Nesse exemplo, eu coloquei um início de dia totalmente normal, sem conflitos e sem dilemas, mas calculei o tempo que essa cena gasta até que o ponto de virada quebre totalmente o clima de normalidade tediosa com uma grande surpresa para o protagonista – e para o leitor também. Esse tipo de início de história é bem funcional e empolgante, mas é difícil de ser construída, exatamente por precisar desse calculo de timming – qualquer exagero estraga a cena e se for rápido demais tira o impacto da virada – e de uma virada realmente surpreendente para compensar o tédio anterior.

Existem ainda outras técnicas. Uma delas é colocar o conflito logo no início e levar o protagonista até ele no final do primeiro ato. Ou ainda colocar o conflito e o ponto de virada no início e apresentar os personagens já dentro dessa nova realidade. Isso é empolgante e enche a história de mistérios. Outras ainda menos convencionais são utilizadas por grandes mestres e é preciso habilidade. Leia suas HQs favoritas, assista filmes e seriados (episodios de series são ótimos estudos para composição de cenas e atos) e descubra quais são as formas que os autores utilizam para criar uma cena inicial de apresentação e como eles inserem a primeira virada de ato. Você vai se surpreender com as opções disponíveis.

E lembre-se: um bom início pode fazer toda a diferença para sua história e para os leitores.

Crise dos Finitos Editores

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Publicado por Marco Rigobelli em 18/12/2009 no Ideias Soltas no Ar

Os quadrinhos brasileiros não são um mercado. Nessa primeira década do século XXI está começando a se tornar um, quase que por osmose, dado o fato da quantidade de autores tornar-se tão grande que o mercado estrangeiro não consegue dar conta de sua demanda, entupindo o submundo independente de obras e fazendo-as serem notadas já há tantas que algumas vão eventualmente ganhar a mídia. Isso, por consequência, faz as editoras os notarem, se interessarem e publicarem trazendo-as ao grande público, ou ao menos ao público que give a shit pra isso. Toda essa cadeia de fatos nos trouxe ao que vemos nesse fim de 2009: Um falso mercado.

Hoje temos revistas escritas, desenhadas, colorizadas, idealizadas, arte-finalizadas, publicadas e editadas inteiramente por brasileiros. Tudo aos trancos e barrancos, mas de alguma forma tem que começar.

Calma lá, eu disse editores? Não, esqueçam. Não existem editores de quadrinhos no Brasil, nem um puto sequer. E quando digo editores, não me refiro somente à pessoa que tem o nome abaixo da função supracitada no expediente da publicação. O editor não é só o chefe dos autores, ele é na verdade um deles. O trabalho do editor em uma história em quadrinhos ou em um livro é a de controle de qualidade, já que o único trabalho do escritor, do roteirista e do desenhista é contarem a melhor história que puderem, o ideal é que nenhum deles deva se preocupar com como o leitor vai receber ou entender a história, só em colocá-la no papel. A parte chata, de dar limites, caminhos, idéias e definir um público cabem ao editor. E em qualquer obra literária (lembrem-se, quadrinhos são uma forma de literatura) cabe a ele supervisionar o trabalho e indicar o que está sendo feito certo e o que não deve ser sequer pensado. E não é algo que passa despercebido, uma decisão errada do editor pode comprometer toda a obra.

Joe Quesada que o diga.

E infelizmente, não temos isso aqui no Brasil, nem nunca tivemos, todo esse trabalho cabe aos autores da história que já não sobrecarregados o suficiente com o trabalho de desenvolvê-la, precisam pensar também na logística e no público. Sim, existem aqueles que acumulam essas duas funções por opção própria, mas quero que perguntem para qualquer quadrinhista/escritor se eles querem acumular as funções. Poderá contar nos dedos quantos vão dizer que sim e nos dedos de uma mão quantos são capazes de fazê-lo, mesmo querendo.

O motivo disso se dá ao fato de os únicos editores de quadrinhos que temos serem todos habituados a já receber as revistas estrangeiras prontas. Suas únicas decisões são sobre distribuição, tiragem e tradução. Isso não dá a ninguém a experiência e o conhecimento de mercado necessário para se exercer a função como ela deve ser exercida.

Não que não exista nenhuma pessoa capaz de fazer isso, conheço muitas que conseguiriam com maestria. Mas aí esbarramos em um problema mercadológico:

Não temos obras suficientes sendo publicadas para as editoras contratarem editores de quadrinhos e para esse trabalho, um contrato freelancer não é muito adequado já que o editor precisa pensar pela editora, ele tem que obrigatoriamente defender a camisa. E convenhamos, publicando dois ou três encadernados por ano, ele não teria muito que fazer e se tornaria um elefante branco na folha salarial. Aqui entramos num paradoxo: O mercado precisa de bons editores especializados para crescer, mas precisamos de um mercado ativo para arcar com esses editores.

A saída mais óbvia é um editor que tanto sirva para importados quanto para os nacionais. Ele não acumularia tanto trabalho, só teria que ficar atento aos dois mercados. Fica a sugestão.

E aqui chegamos em outro fato preocupante. O mercado literário brasileiro, fértil em grandes autores, vem sofrendo de um problema parecido. Sim, há ótimos editores aqui, nosso problema reside na internet. Cada vez mais autores tem se deslumbrado com a liberdade que ela proporciona, fazendo-os publicar a obra por conta própria. Isso gera os mesmos problemas já citados. Existe nesse mercado independente obras muito boas, mas que pecam pela falta de um editor, o que é sentido durante a leitura da mesma.

Posso citar coisas como o estilo da narrativa mudando bruscamente de um capítulo para outro, caminhos mal escolhidos para se conduzir personagens e por aí vai.

Fábio Moon e Gabriel Bá sobre profissionalismo dos autores brasileiros

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Fabio Moon e Gabriel Bá - Quadrinhos Nacionais

Eu costumo dizer que não importa quem faz, mas sim que seja feito.

Em um post em seu blog, Gabriel Bá falou sobre artistas brasileiros premiados no exterior e disse algo que está de acordo com essa minha afirmação:

Eu sempre digo que acho que não importa de onde o autor vem, o que importa é o trabalho. Sempre ressalto que não se deve exaltar os prêmios, mas o trabalho.

Muita gente nem sabe que eles são brasileiros. Na verdade, nem importa.

O que realmente importa não é que o Brasil seja uma nação soberana e respeitada de quadrinhistas fabulosos e premiados. O que importa é que todos tenham a mesma chance, independente de onde nasceu, que o fator determinante seja a técnica e competência.

Mas para que isso seja verdade, essa técnica e competência deve existir para que possamos ir atrás da chance. Senão, de nada podemos reclamar.

Ou seja, Gabriel sabiamente chamou para os autores a responsabilidade.

É a nossa opinião, nós brasileiros, leitores ou autores, gente querendo fazer Quadrinhos, que tem que mudar. Sem ufanismo, mas com realismo. Chega de tapinha nas costas. Temos que respeitar mais a nossa profissão, o trabalho do Quadrinhista, o profissionalismo, a qualidade e o aprimoramento técnico. Os Quadrinhistas precisam se levar mais a sério, elevar os seus padrões de cobrança, seus níveis de exigência em relação ao trabalho. É preciso deixar de ser fã e fazer por curtição e aprender a encarar os Quadrinhos como um trabalho. Se no Japão, na Europa ou nos Estados Unidos nossa profissão tem mais respeito, quem trabalha para estes mercados acaba respeitando mais o seu próprio trabalho. Aqui não temos este respeito, nem por parte do público, nem dos autores.

Somos todos de carne e osso, temos problemas e limites. Somos todos iguais. Então chega de moleza, de preguiça, de comodismo. Por que todos estes desenhistas trabalhando no mercado americano se destacam tanto? Por que eles evoluem e se aprimoram? Por que eles têm esse tal profissionalismo? É porque tem um editor cobrando? É porque eles são pagos? Temos que cair na real. Se você não se dá ao respeito, ninguém vai dar.

Que tal seguirmos os conselhos do Gabriel ao invés de ficar choramingando por falta de oportunidades ou de mercado? Siga o exemplo de quem conquistou seu espaço e lute pelo que acredita.

Confira o texto de Gabriel Bá na íntegra.

#GabrielFalaMesmo

Roteiro para Quadrinhos Nacionais – Nada se Cria, Tudo se Vive!

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Eu não entendo o autor de quadrinho nacional. O cara cresce lendo quadrinhos, seja comics ou mangás e quer fazer sua HQ também. Até aí… tudo bem! Mas o sujeito quer fazer IGUAL ao seu gibizinho favorito. Quer dizer, igual não. Ele é criativo – muda os nomes das personagens e a cor das roupas! Ahá! Não contavam com a astúcia dele!

Nesse terceiro artigo da nossa série sobre quadrinho nacional (confira O Famigerado Mercado de Quadrinho Nacional e Criando um Herói para Quadrinhos Brasileiros) quero abordar um pouco mais a fundo a questão da criação.

Como foi dito anteriormente, a solução para um mercado está na criação própria voltada para brasileiros, e a idéia é o embrião da criação. Mas de onde tirar idéias que prestem?

Vou usar o exemplo dos comediantes brasileiros. Eu não sou um grande apreciador do humor, mas devo admitir que alguns humoristas brazucas me fazem rir muito. Nós brasileiros temos a fama de fazer piada da nossa própria desgraça. Não que isso seja um dom, mas, para mim, isso indica que o humorista está antenado com a realidade do Brasil. É piada de todo tipo de coisa do nosso cotidiano: política, futebol, preconceito, pobreza, política, peruas, transporte alternativo, adolescentes, escolas, política, religião, carnaval, apresentadores de programa, enchentes, política, músicos, política… a lista quase não tem fim. E o Brasileiro ri, não apenas porque a piada é boa, mas porque é a própria realidade brasileira. Como diria a Dona Edith: – “é ou num é ou num é? É!!!”

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Dona Edith é um ótimo exemplo do que estou falando. É um quadro da peça de Teatro Terça Insana que brinca com a pobreza na favela. Perceba bem: alguém que não sabe o que é uma favela, provavelmente não vai rir nem entender metade das piadas do quadro. Alguns quadros da Terça Insana não são para qualquer um rir. Falando nisso, sabe aquela fama de que piada de norte-americano não tem graça? Por que será? É óbvio que é porque não estamos contextualizados ao tema da piada em questão.

A idéia é simples assim… Sua idéia tem que partir de algo de fácil reconhecimento do seu leitor. Ele vai ler aquilo e saber do que se trata, assim como um japonês que lê um mangá com estudantes com roupas de marinheiro que usam o ki e tem vergonha de pegar na mão da namorada em público.

Quando um humorista brasileiro faz uma personagem satirizando uma situação ou uma classe ou até mesmo uma pessoa pública, ele não está sendo preconceituoso, como algumas pessoas pensam. Ele está rindo de SI MESMO. Quem assiste e ri, também ri de si mesmo, estão todos rindo de si mesmos porque somos nós que fazemos o país ser essa grande piada, seja com nosso conformismo, seja com nossos votos, nossa omissão ou nossa ignorância. As pessoas riem porque no fundo dizem “é verdade, a coisa é assim mesmo”. Mas o que o humorista está fazendo? Um estereótipo. Mas não um estereótipo universal, mas brasileiro, para brasileiro entender. Ele estereotipa o pobre, o favelado, o político, o adolescente, o rico. É o que o pessoal da Terça Insana faz. Então ele brinca com o estereótipo, desconstrói, cria situações com ele e apenas deixa a personagem agir naturalmente, porque a personagem já tem um comportamento e objetivos definidos. E as possibilidades são quase infinitas.

Assista alguns vídeos da Terça Insana e faça uma lista dos estereótipos que ali são representados. Depois marque com um X os que você conhece bem, o tipo com o qual você convive ou já conviveu. Então pegue a personagem cujo estereótipo você mais conheça e crie uma situação para ela em outro gênero – terror, fantasia, romance, drama. Pegue a dona Edith e jogue-a num planeta de fantasia estilo El Hazard (mas coloque coisas interessantes para o brasileiro, como um mundo onde tudo é cercado de cerveja, praia, ou a total ausência dessas coisas e brinque com isso) e faça a personagem ser ela mesma nesse mundo. Como uma líder comunitária semi-analfabeta que fala “incrontá” ao invés de “encontrar” se sairia se tivesse que salvar um mundo fantástico? E se junto com a Dona Edith estivessem a Irmã Selma, a Leila e a Adolescente? Claro que aí você vai ser tentado a fazer uma comédia, mas faça uma comédia com a fantasia, porque esse é o tema. Ou faça um terror e explore as possibilidades. A irmã Selma é de botar medo, porque ela reza para que algo aconteça a alguém… “E acontece”! Ou uma versão Big Brother do mundo de Mojo. Mas o mais importante é que isso estará voltado para o brasileiro e suas necessidades e vontades. Se a personagem for bem construída e autêntica, o leitor será cativado, vai querer saber o que acontecerá com a personagem no final e vai se importar com ela.

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Claro que não é só de personagem que vive uma HQ. É preciso ter uma estória. E nada melhor do que simplificar as coisas. Hoje é muito comum cenários e elementos complexos envolvendo física quântica, magia do caos e etc; mas toda boa estória parte, em sua concepção inicial, de uma premissa simples, seja um sujeito comum que recebe poderes ao ser picado por uma aranha ou seja um moleque traumatizado pela morte dos pais que quer vencer o crime. Simples e próximo do leitor. A partir daí, coloque suas pirações, complexidades e o que mais achar útil, mas a premissa deve ser sempre o mais simples possível. Brinque com as possibilidades e os rumos que o mundo está tomando. Imagine o malandrão da favela recebendo super-poderes por causa de uma pedra de crack mofada! E o poder que ele receberia é o de transformar a realidade de uma pessoa em uma viagem alucinógena!

Mas tudo isso é exemplo. Você não vai fazer suas HQs baseados em personagens humorísticos (e se fizer e for processado por plágio, nem vem me culpar). Você vai observar o mundo a sua volta. Vai observar as pessoas na rua, no trânsito, no trabalho, na escola. Vai viver! Conversar com alguém na fila do banco. Observar como o tipo de pessoa que você quer retratar se veste, age ou se comporta na sociedade. Olhar os objetos que carrega e tentar imaginar como é a vida daquela pessoa, do que ela deve gostar, onde trabalha, apenas com as informações visuais que tem ali. Você vai conhecer pessoas porque não quer fazer personagens vagos e rasos, que não representem em nada o grupo que você escolheu. Não se prenda ao visual. Vá além! Vá à essência das pessoas e suas necessidades, sonhos específicos, carências e objetivos. A identificação não precisa ser apenas através da personalidade ou do visual, mas também do que as pessoas precisam. O simples fato de seus personagens serem humanos em busca de algo, seja o propósito de viver ou o carro do ano,  já é um fator de identificação praticamente universal. Vá mais a fundo na alma do ser humano e você encontrará assunto pra estórias que não acabarão mais. Depois afunile o fator de identificação ao grupo de pessoas a quem você está se dirigindo – sem esquecer que são brasileiros que, na maioria esmagadora, não querem saber de uniformes de marinheiro nem heróis de collant com codinomes ridículos.

Depois de você criar a ambientação (esse assunto será tratado melhor futuramente), o enredo virá da interação desses personagens entre si e essa ambientação é a reação deles, suas escolhas e a conseqüência dessas escolhas que farão a sua estória.

Mas o mais importante de tudo é que não vai adiantar nada disso se sua idéia for vazia, se sua estória for apenas mais uma entre tantas. E é aí que você vai ser diferente de um produto fabricado feito APENAS usando a identificação das personagens para manipular e comover o leitor e prendê-lo ao produto, fazendo-o querer ser o que é mostrado em tais estórias. Este pretenso autor que escreve a vocês e a ComicsLivres repudia tal atitude que transforma as HQs em subprodutos feitos visando única e exclusivamente a devoção do leitor cativado ao personagem (uma marca), o que lhe rouba a identidade e a capacidade de agir por si próprio. Estórias, assim como qualquer outra mídia, feita com tais ferramentas, são poderosas para interferir na vida das pessoas. Você está lidando com gente, pessoas de verdade, que você não fará idéia de como ela vai reagir aos seus personagens. Portanto, importe-se com seu leitor e tenha algo a dizer. Não um discurso, nem um pensamento pronto e pré-formatado sobre qualquer coisa. Mas tenha algo a dizer que o faça pensar, que o faça questionar o mundo em que vive e questionar a si mesmo como parte desse mundo. Não é isso que o nosso humor brasileiro faz? Ao mesmo tempo em que faz rir dos políticos, das loiras burras e das favelas, está dando um enorme grito pedindo para que você olhe como as coisas estão e faça algo a respeito. Pena que as pessoas se contentem em se entreter e deitar a cabeça no travesseiro.

Por isso, antes de mais nada, viva! Respire ares novos, conheça lugares, olhe para as pessoas como você nunca olhou antes. Faça algo inusitado, perceba o mundo e suas maluquices. Só assim você terá sua visão única, peculiar sobre o mundo e as pessoas e, como na profissão do fotógrafo, é a sua visão, seu modo de olhar as coisas, que fará toda a diferença no final. É daí que virão as grandes idéias e as boas eistórias.

Imagens retiradas da apresentação da Peça Teatral “Terça Insana”. Todos os direitos reservados, e tudo e tal.

Mais um velho artigo resgatado do pó e das traças.

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