HQs do Abismo – Corredores Fantasmas

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Tempos atrás escrevi e publiquei aqui o conto Corredores Fantasmas. Algumas pessoas gostaram e o talentoso Wellington IRP me procurou e perguntou:

– Posso fazer uma HQ do seu conto pra treinar?

E obviamente respondi:

– Mas é CLARO!

Eu dei toda a liberdade para ele contar a história com a narrativa que achasse melhor, como geralmente faço. E não me decepcionei. Ele me enviou logo esboços das páginas e pouco tive a acrescentar a não ser alguns detalhes. Em cerca de dois meses, se não me falha a memória, ficou tudo pronto. Confira o resultado.

HQ online

E ainda nessa mesma parceria, uma nova HQ está a caminho. Mega-E é uma história cyberpunk/cybergoth ambientada em um Brasil corporatocrata às portas do pós-humanismo. Confira os primeiros estudos de personagens:

Estudo de personagens de HQ cyberpunk

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Contos do Abismo – O Banquete da Diva

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O Banquete da Diva

(Leia ouvindo: Kellee Maize – I Insist)

O show estava prestes a começar e Joana estava explodindo de emoção. Seus gritos de êxtase, porém, se perdiam no coro de berros descontrolados da multidão. Uma melodia produzida por sintetizadores aumentavam ainda mais a expectativa e quase fazia com que os milhares de fãs presentes suplicassem para que Lyzza Connor entrasse no palco.

Quando a melodia chegou ao clímax, alcançando sua nota mais alta, Joana soube que a diva estava prestes a aparecer. A “musa do pop” emergiu do palco, de costas para o publico, uma nota prolongada acompanhou os gritos e aplausos ensurdecedores da multidão. Joana competia com as garotas ao seu redor, procurando gritar o mais alto possível para chamar a atenção da musa que, indiferente, começava a recitar os versos, marca registrada da artista em suas apresentações.

I want you, don’t metters who you are
I need you, wherever you are
I love you, becouse I love me
And you and me are the same
My free and uncheined soul will cath you
And your soul will be closed inside me
Forever.

Joana se sentia presa e limitada. Não queria apenas gritar. Queria sair de seu corpo, expandir sua essência por todo hall e abraçar com a alma sua deusa. De alguma forma, se sentia conectada com Lyzza Connor, como se ela a conhecesse e soubesse de seu desejo de alcançá-la.
A diva cantava acompanhada de diversos dançarinos, em perfeita sincronia de movimentos e gostos que mais pareciam uma linguagem estranha mas, ao mesmo tempo, perfeitamente compreensível ao espírito.

Joana tentou se aproximar ainda mais do palco. Precisava sentir tocá-la, senti-la, misturar seu suor ao dela, tornar-se uma com ela.
Foi nesse instante que Lyzza Connor a viu, e cantou fixando seu olhar em seus olhos, provocando-a, sensualmente. Joana abandonou por completo a razão e abriu caminho em direção ao palco, afastando a multidão efervescida. Mas como era pequena e frágil, foi cada vez mais pressionada e esmagada pelos rivais que tinham o mesmo objetivo. Sufocada, caiu, com dificuldades de respirar. Joana não sentiu quando foi pisoteada, apenas se desesperou por estar cada vez mais incapacitada de atingir seu objetivo.

Os seguranças tentaram acalmar o público e impedi-lo de atravessar a faixa de contenção. Empurravam a massa descontrolada e, com isso, Joana conseguiu espaço para se levantar. Com sangue escorrendo pelo rosto, as pessoas à sua volta se afastaram, assustadas. Avançou em direção à diva, sendo agora interrompida pelos seguranças, que a empurravam de volta para a multidão, que por sua vez a empurravam para os lados como as ondas do mar.

Um tumulto se formou ali perto. Joana aproveitou para ultrapassar a faixa e escalar o palco, invadindo-o. O publico aplaudiu sua ousadia e vitória.

A diva, impressionada com o esforço de sua fã, parou de cantar e caminhou até ela. Um grande silencio se fez, exceto pelos instrumentos que continuavam a tocar um ritmo dançante. Joana correu em direção a ela e a abraçou.

***

Lyzza Connor devolveu o abraço da fã e lhe deu um beijo molhado. O publico aplaudiu a atitude da cantora e a sorte da garota, que parecia perder as forças e escorregava dos braços de sua diva. Antes de soltá-la, Kelly passou os dedos em seu pescoço, deslizando suavemente pela nuca. Joana caiu, inconsciente.

Um segurança correu pelo palco e carregou a garota desmaiada, enquanto Lyzza Connor voltava a cantar, executando sinais com as mãos. Quando sentiu que era o momento mais adequado, durante a coreografia, formou um triangulo com as mãos e as posicionou sobre a testa.
Fechou os olhos e imediatamente uma imagem se formou em sua mente. Via tudo com uma coloração azulada – o palco, seus dançarinos, a estrutura do ginásio, mas cada pessoa do público tinha uma aura vermelho-sangue. Os mais extasiados emitiam uma cor maior e mais brilhante. Lyzza Connor concluiu que seu público ainda não estava preparado para o ritual. Desfez o triangulo de dedos e continuou seu show cantando Sickness.

Algumas canções depois, viu Joana assistindo, emocionada por estar assistindo ao show de camarote. Se impressionou com a velocidade com que a fã se recuperara. Uma pessoa comum levaria horas para recobrar as energias após seu toque.

Chegara o momento da principal musica da turnê, recém-lançada em single. Os coreógrafos, durante a dança, carregavam objetos para o palco, que fariam parte da encenação. Seria o clímax e o público precisava estar pronto no último refrão da música. No centro do palco foi colocado a estátua de uma espécie de animal cornudo bípede.

A “musa do pop” começou a cantar a introdução de “Call me, Love me, Take me”, sem nenhum acompanhamento. Novamente, Kelly posicionou as mãos em triangulo sobre a testa e viu que a aura avermelhada do publico se acentuava lentamente enquanto terminava o trecho.

Os instrumentos e sintetizadores começaram a acompanhar a melodia da primeira estrofe e a cantora, junto de dezenas de dançarinos, fazia movimentos sensuais e provocantes enquanto ela repetia a frase “no heart, no guilty”. Fez novamente o triangulo na testa, fechou os olhos, e verificou que a aura dos seus fãs estava dilatada, fruto do desejo, da adrenalina produzida pelo ritmo, e da adoração à diva. Mas Kelly estava insatisfeita. Sabia que aquele público era muito devoto e poderia oferecer a melhor refeição de sua carreira.

Percebeu então que a energia estava escoando para um ponto oposto. Rapidamente localizou um dos seguranças, do outro lado do estádio, no alto da arquibancada, roubando seu jantar. Em um acesso de raiva, fez alguns símbolos com as mãos, que mais pareciam parte da coreografia, e emitiu uma rajada psíquica. O segurança, sem nenhum tipo de escudo ou defesa, foi arremessado para trás. Um amador, concluiu ela. Fez sinal para que todos os instrumentos parassem e cantou com seus fãs. Depois, deixou-os cantando sozinhos, enquanto tirava a fina capa branca que cobria seu corpo, ficando apenas com roupas íntimas.

Pediu para que todos levantassem as mãos enquanto continuavam a cantar, repetindo a frase como um mantra. Se posicionou de frente para o animal. Fez um novo gesto com as mãos, formando um círculo, e o posicionou sobre o plexo solar.

Todo o público do estádio começou a se sentir cansado. Conforme a musica se encerrava, as pessoas abaixavam suas mãos, fechavam os olhos e todo o fervor e paixão cessara. A diva, ao contrário, entrava em estado de êxtase, quase em transe, trêmula, tamanho era o prazer que sentia ao absorver toda aquela quantidade de energia vital. Jamais vira um público tão devoto. Provavelmente, se soubessem a verdade, dariam sua energia de bom grado como sacrifício à deusa.

Lyzza Connor estava mais que satisfeita com o mais intenso e saboroso banquete que jamais tivera.

Concluiu que precisava fazer mais shows no Brasil.

***

Joana chamara as amigas para assistir em sua casa o novo DVD da Lyzza Connor. As meninas dançavam na frente da TV de plasma. Sabiam de cor todas as coreografias da diva. Repetiam com precisão todos os movimentos sensuais e gestos com as mãos, inclusive o triangulo posicionado na testa, que se tornara mania entre as adolescentes.

Mas Joana não entendeu por que, ao fazer aquele gesto, uma imagem azulada se sobrepôs à sua visão. Fechou os olhos e se assustou por continuar enxergando tudo, sob um manto azul e, principalmente, por ver uma aura avermelhada em suas amigas. Mas achou aquilo muito interessante e sorriu ao sentir um gosto metálico quando as outras caíram, semi desfalecidas, no sofá.

– Nossa – disse uma delas – eu adoro dançar Lyzza Connor, mas cansa, viu!


Esse conto estava perdido entre meus arquivos; eu nem me lembrava dele. Achei adequado revisá-lo para postar aqui em tempos de lançamento de duas antologias de temas bem semelhantes: PsyVamp, em ebook, e Vampiros de Alma, em audiobook.

PsyVamp

PsyVamp: Antologia em e-book que você compra pelo preço que quiser.

Vampiros de Alma - A Lenda dos Sucubus e Incubus

Vampiros de Alma - A Lenda dos Sucubus e Incubus. Antologia em audiobook gratuita organizada por Anny Lucard

Se você gostou desse conto, provavelmente vai gostar desses lançamentos. Corre lá!

Contos do Abismo – Morte 2.0

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Morte 2.0

(Crônicas Sobrenaturais do Colégio Marista)

Trilha sonora: Therion – To Mega Therion



A professora Taís não queria demonstrar o mal-estar diante dos alunos.

Disfarçou bem durante toda a sua aula de química, dando uma atividade qualquer em grupo para a que a classe não prestasse atenção nela.

Mas Clarisse prestava muita atenção na professora. Ela e todos os rapazes que não se preocupavam mais com as notas do que com suas fantasias que seriam compartilhadas entre os mais confidentes durante o intervalo. Eles achavam justificável ter química como matéria favorita por causa da professora; afinal, ela não era apenas linda como também se vestia muito bem e usava um perfume embriagante. Era comum os garotos irem até a mesa da professora, com caderno na mão e a desculpa de precisar tirar alguma dúvida, apenas para sentir seu cheiro e espiar os decotes mais de perto. Era a diva da oitava série. A ousada desafiadora das regras do Colégio Católico Marista, para o desespero das madres que o dirigiam.

Já Clarisse a encarava de outra forma. Considerava o comportamento masculino de sua classe um absurdo, mas pior ainda era a professora que, ao invés de se dar ao respeito, usava decotes e maquiagem sedutora para aliciar adolescentes imberbes.

Taís não reparou se alguém estava olhando ou não. Sentia náuseas e dores de cabeça. Repentinamente, levou a mão a boca e correu em direção à porta. Viu que não teria tempo de chegar ao banheiro e vomitou ali mesmo, no cesto de lixo, todo o seu café da manhã. E sangue. Muito sangue.

Quando ela foi levada para o hospital, o tipo de comentário na sala era de que a professora de química estava grávida, o que decepcionou os garotos mais sonhadores. Mas todos ficaram satisfeitos por ganharem uma aula vaga.

Clarisse correu para a biblioteca com seu netbook na mochila. Não acreditava que aquilo funcionara! Empolgada, acessou pelo sinal wi-fi do colégio o site que algum perfil anônimo do twitter lhe indicara semanas atrás: O Voodoo Online.

Voodoo Online era uma espécie de comunidade virtual. Como Clarisse sempre fora viciada em Second Life e Colheita Feliz, teve muita facilidade para entender o funcionamento daquela que se tornara a página inicial do seu navegador. Voodoo Online oferecia todas possibilidades da religião Voodoo, mas sem a necessidade de adquirir as ferramentas necessárias – estava tudo ali, na tela do computador. Com um clique, Clarisse podia escolher o que seria necessário para o novo ritual. E o melhor de tudo: interagir com usuários do mundo inteiro.

Fez o login no site e esperou o ambiente de realidade virtual em 3D ser carregado. Seu avatar, uma mulher adulta, surgiu na sala onde realizava os rituais. Selecionou “Farinha de Milho” na janela de ítens e “Pincel” na barra de ferramentas. Com a farinha, desenhou um emblema no chão. Precisava de mais “Rum”. Acessou a página da comunidade do site e comentou rituais de suas amigas e até participou de um deles, tudo para juntar pontos. Com os novos pontos, chamados voduns, ela pôde navegar com o avatar pela tenda do NPC Hugan e comprar uma garrafa rum e velas vermelhas. Ainda sobraram alguns voduns que colocou no cofre para futuramente adquirir o livro de feitiços nível seis.

Levou seu avatar novamente para sua sala e espalhou o rum sobre o desenho que fizera com a farinha de milho. Abriu o player e selecionou uma música para iniciar a seção. Músicas eram necessárias no ritual e custavam uma grande quantidade voduns, mas podiam ser adquiridas em mp3 por dinheiro real pago através do paypal. Clarisse deixara de lanchar muitos dias no colégio para ter uma coleção delas em seu iPod.

Sons de tambores e cantos africanos foram entoados. Clarisse usava fones de ouvido para não chamar atenção de ninguém. Convidou algumas amigas adicionadas em seu perfil que estavam online no momento e vestiu seu avatar com a roupa apropriada. Não eram muito boas, mas teria melhores quando seu perfil atingisse um nível mais alto. Cada ritual no Voodoo Online lhe daria uma quantidade de experiência, que podia trocar por voduns ou para subir níveis. Quanto maior o nível do usuário, maior os níveis de livros de rituais poderia adquirir. Clarisse estava no nível cinco.

Selecionou uma dança específica entre as ações básicas do avatar que vinham no pacote gratuito para iniciantes. Não demorou para que o avatar de Legba, o intermediário dos espíritos, surgisse em sua tela.

Na hora do sacrifício, Clarisse selecionou uma criança virtual recém-nascida que lhe custou 200 voduns. Selecionou a adaga na barra de ferramentas e fez cortes no bebê com alguns cliques. Abaixou o volume do fone de ouvido, pois o som era estridente. A criança eletrônica deveria sofrer tanto quanto Clarisse gostaria que a professora de química sofresse, além de gritar para que os espíritos acordassem. Havia uma barra que mostrava o nível de sofrimento, variando do “confortável” ao “insuportável”.

Abriu um corte no abdome do bebê e tirou as tripas. Colocou-as, arrastando com o mouse, dentro do item “boneco de cera”, que costou 20 voduns. As agulhas estavam prontas para ser usadas. Tudo estava funcionando e o loa surgiu na sala virtual. Clarisse enviou uma foto escaneada da professora e digitou: Taís de Abreu.

No dia seguinte, o colégio estava em luto. A professora Taís morrera no hospital, um dia depois de ser internada. As freiras sussurravam pelos cantos como o castigo de Deus fora implacável com a agitadora indecente.

A oitava série B deveria ter aula de química, mas sua professora substituta ainda não havia sido escolhida. Os alunos foram dispensados para um intervalo. Clarisse, sorrindo, correu até suas amigas dizendo o quanto o Voodoo Online era fantástico. Elas riram satisfeitas, mal acreditando o que as entranhas de uma criança virtual, feita de bytes, pixels e polígonos eram capazes de fazer a alguém.

Uma das garotas, evangélica, fez menção de questionar se o que faziam era correto. Clarisse lhe explicou, com poucas e convincentes palavras, que “tudo o que você fizer, seja bom ou ruim, é plano de Deus”. A evangélica sorriu.

Olharam para os meninos decepcionados com a ausência da mulher que habitava em suas fantasias. Em poucos dias, Clarisse e suas amigas teriam voduns o suficiente no Voodoo Online para adquirir o “Livro Nível Seis – Feitiços de Amor”. Então, não haveria professoras sensuais que pudessem roubar os olhares e sonhos dos rapazes.

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Este conto faz parte da série Colégio Marista. São histórias fantásticas que ocorrem no cotidiano deste misterioso lugar povoado por alunos, professores e… coisas – vampirosbruxas,lobisomens,demôniosanjos,erêsinccubus,succubus e sabe Deus o que mais.


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