(Mini)Contos do Abismo – A Sombra na Sarjeta

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A Sombra Na Sarjeta*


Todos diziam que era o mendigo mais repulsivo já visto. Rosto escondido em um emaranhado confuso de cabelo e barba, conversava com uma lata de lixo. Os executivos e prostitutas tinham em comum uma careta de nojo e concordavam: cheirava muito mal.

Era noite. Ele interrompeu seu diálogo com a lixeira e começou a andar pela Sé. Puxava seu carrinho de madeira onde carregava entulhos para vender por alguns centavos, o que garantiria um gole de cachaça. Resmungava algo incompreensível. Ninguém da mendicância local jamais entendeu palavra alguma do que dizia. Parecia outra língua.

Afugentava a todos com seu aspecto grotesco, exceto os comerciantes. Aqueles que vendiam lanches tentavam enxotá-lo, para que os fregueses não perdessem o apetite com o mau cheiro. Já as que vendiam o corpo, tinham medo de lhe dirigir a palavra. Mas tinham medo de qualquer um, pois havia um rumor sobre o desaparecimento de mulheres de “vida fácil”.

O mendigo era apenas uma sombra na sarjeta quando escolheu a prostituta que considerou mais saudável e jovem. A rua era deserta, o pescoço macio. Sorrindo, ele exibiu suas presas que cresciam, grandes e apodrecidas. A mordida foi doída, pois os dentes há muito não eram tão afiados quanto nos bons tempos. Sangue quente e pulsante derramou dentro da boca fétida. A vítima gritou mais do que ele gostaria. Debatia-se e ele não conseguia controlá-la.

Irritado, quebrou-lhe o pescoço. Não podendo beber sangue de defunto, pestanejou. Teria que matar mais do que de costume para saciar a fome.

Saudades dos velhos tempos de glamour.

*Esse miniconto foi o segundo colocado no concurso do blog Masmorra do Terror.

“Resposta”, por Fredric Brown

1 Comentário

Quando eu li isto, mais ou menos aos 16 anos, não imaginei um mundo com metade do que existe hoje – coisas como Echelon, por exemplo.

Conto fantástico de 1954.

Dwar Ev soldou solenemente a junção final com ouro. A objetiva de uma dúzia de câmeras de televisão se concentrava nele, transmitindo a todo o universo doze enquadramentos diferentes do que estava fazendo.

Endireitou o corpo e acenou com a cabeça para Dwar Reyn, indo depois ocupar a posição prevista, ao lado da chave que completaria o contato quando fosse ligada. E que acionaria, simultaneamente, todos os gigantescos computadores da totalidade dos planetas habitados do universo inteiro – noventa e seis bilhões de planetas – ao supercircuito que, por sua vez, ligaria todos eles a uma supercalculadora, máquina cibernética capaz de combinar o conhecimento integral de todas as galáxias.

Dwar Reyn dirigiu algumas palavras aos trilhões de espectadores. Depois de um momento de silêncio, deu a ordem:

– Agora, Dwar Ev.

Dwar Ev ligou a chave. Ouviu-se um zumbido fortíssimo, o surto de energia proveniente de noventa e seis bilhões de planetas. As luzes se acenderam e apagaram por todo o painel de quilômetros de extensão.

Dwar Ev recuou um passo e respirou fundo.

– A honra de formular a primeira pergunta é sua, Dwar Reyn.

– Obrigado – disse Dwar Reyn. – Será uma pergunta que nenhuma máquina cibernética foi capaz de responder até hoje.

Virou-se para o computador.

– Deus existe?

A voz tonitruante respondeu sem hesitação, sem se ouvir o estalo de um único relé.

– Sim, agora Deus existe.

O rosto de Dwar Ev ficou tomado de súbito pavor. Saltou para desligar a chave de novo.

Um raio fulminante, caído de um céu sem nuvens, o acertou em cheio e deixou a chave ligada para sempre.

#tenso!

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