Contos do Abismo – A Capela

8 comentários

A Capela

(Crônicas Sobrenaturais do Colégio Marista)

Trilha sonora: Theatre of Tragedy – Venus

 

Amim nunca estivera tão feliz em toda sua vida. Jamais imaginou que um dia teria tanta sorte: a garota mais linda do Colégio Marista era agora sua namorada.

Ele sempre fora o gorducho mimado pelo Sr. e Sra. Gorduchos. Tinha tudo o que pedia aos pais. Sendo de família de comerciantes turcos da cidade, causava inveja nos colegas por sempre ostentar as melhores marcas e as mais recentes novidades tecnológicas. Sempre empinava o nariz de tucano quando era deixado na porta do colégio pelo chofer da família ou fingindo receber uma ligação no Iphone, mesmo quando todos sabiam que ele não tinha para quem ligar a não ser seus pais. Mas Amim não tinha mais nada além de bens materiais para provar seu valor. Por isso, os demais alunos somavam o desprezo natural que ele lhes causava à inveja que fazia questão de incitar. O resultado inevitável era ódio. Era comum ser ignorado, rechaçado e, às escondidas, espancado.

Mas agora entoaria seu canto de cisne, exibindo sua nova aquisição. Lilian, a garota mais cobiçada de todas, lhe pertencia.

Lilian sempre fora a paixão de Amim, mas o que mais o fascinava eram os arrepios que ela lhe causava. Desde que ele se matriculara no Colégio Marista, estudavam na mesma classe e sempre, ao vê-la, sentia um arrepio nos braços e na nuca. No início, não sabia o que causava essa estranha reação em seu corpo, mas logo percebeu que a simples presença da menina fazia seus pelos eriçarem. Ele não sabia explicar o motivo, mas adorava a sensação. E agora que estavam namorando, sentia arrepios prazerosos o tempo todo.

O único problema era que Lilian não concordou que fossem vistos juntos em público. Pelo menos por enquanto. Argumentava que precisava avisar seus pais antes que o namoro se tornasse público. Ela tinha apenas dezesseis anos e precisava tomar certas precauções. Era um assunto delicado em sua família, ele devia entender.

Claro que ele entendia! Na verdade, sequer pensou nisso quando Lilian sugeriu, com um sorriso malicioso que lhe causou arrepios múltiplos, que se encontrassem em segredo em um lugar diferente: uma capela abandonada, localizada nos fundos do colégio onde estudavam.

Lilian e Amim ainda não haviam tido um momento a sós, o que significava que ainda sequer haviam mais do que trocado algumas palavras durante o recreio. Mas naquele que era o terceiro dia de namoro, finalmente avançariam. Ficou imaginando o quanto seria esse avanço.

Durante a aula, Amim estava eufórico e nervoso. Em poucas horas estaria sozinho com Lilian. Olhou para ela de soslaio. Estava linda! Usava batom muito vermelho, o cabelo preto e liso estava preso em um coque perfeito. A longa franja cobria quase totalmente os olhos maquiados, mas podia perceber os cílios compridos piscando excessivamente. Achou que a camisa branca de mangas compridas do uniforme, abotoada até o pescoço, criava um contraste curioso com seu aspecto sedutor, acentuando o mistério.

Após a aula, fez como combinado. Enquanto Lilian conversava com as amigas na saída do colégio, Amim se apressou para o local de encontro. Ao atravessar o pátio do colégio, encontrou com Lucas e Mario. Sabia que ambos fariam o que faziam todos os dias. Lucas dava tapas em sua nuca. Amim se virou para ele, dando as costas para Mario que lhe dava um chute no traseiro e assim sucessivamente, até que os dois se cansaram e foram embora. Amim olhou em direção ao jardim, onde Lilian se demorava. Estava de costas para ele. Ainda bem. Olhar para ela e pensar no encontro a sós o fez esquecer do que acabara de acontecer e se apressou.

Pela primeira, fez um telefonema real pelo Iphone, mas não havia ninguém por perto para sentir inveja. Sua mãe atendeu. Amim explicou que chegaria tarde. Iria à casa de um amigo jogar video-game. A Senhora Gorducha ficou tão feliz por seu filho estar fazendo amizades que esqueceu de perguntar o nome e telefone do tal amigo.

***

Em pouco mais de dez minutos, chegou no lugar combinado. A capela era uma construção sombria, que causava repulsa dos alunos. O próprio solo, à medida em que se aproximava da capela, se tornava doentio, como se algo de pútrido se alimentasse das ervas daninhas amareladas e murchas. Uma mancha sem vida parecia se espalhar pela terra e muitas lendas colegias falavam sobre o dia em que as salas de aula seriam engulidas por aquela contaminação anômala.

Por dentro, a capela era escura e suja, parecia que ninguém entrava ali havia séculos. Achou estranho que Lilian gostasse de ir àquele lugar. Amim perambulou entre bancos cobertos de pó. As janelas eram todas cobertas com tábuas pregadas, por algum motivo que Amim só podia supor.

Lilian apareceu subitamente pela porta dos fundos. Amim se assustou, mas logo reconheceu a silhueta que admirou por tantos meses em segredo.

É você, meu amor?

Sim. Sou eu.

Esse lugar é assustador. Você realmente gosta daqui?

Sim, é um ótimo lugar para fugir do mundo lá fora, relaxar, ler…

Ler? Aqui deve ser escuro até mesmo de dia.

Ao dizer isso, uma tênue luz se acendeu, aumentando gradualmente. A imagem de Lilian surgiu no altar, diante de um castiçal de doze velas, acendendo uma a uma. Amim sorriu sem graça.

E o que você gosta de ler?

Bram Stoker. Lord Byron. Bukovski. Essas coisas, sabe…

Amim não sabia. Mas fingiu bem, ou assim imaginou. Lilian tirou uma garrafa debaixo do altar e encheu duas taças de vinho.

Você preparou tudo isso? – Disse o impressionado Amim, sorrindo, enquanto bebericava uma bebida alcoólica pela primeira vez em sua vida. Sentiu-se imediatamente tonto, mas tentou agir normalmente. Quis aproveitar a situação e o álcool surtindo rápido efeito para tomar a iniciativa. Aproximou seu o rosto dela.

Que apressado. Não quer apreciar as outras surpresas que preparei para te estimular, querido?

Por favor – disse, reunindo toda a sua coragem – Me chame de meu pudinzinho turco.

Lilian, séria, não tirava os olhos profundos dos dele, deixando-o sem graça. Estavam muito perto. Sentia arrepios por quase todo o corpo, o que o excitou e constrangeu ao mesmo tempo. Ela era menor do que ele uns dez centímetros e tinha o corpo frágil e delicado, o que o fazia se sentir superior e protetor pela primeira vez na vida. Precisava se controlar. Não podia se assustar com o lugar onde ela costumava passar suas horas vagas, nem se apressar e estragar tudo.

Venha, vou lhe mostrar um lugar ainda mais fascinante.

***

Liliam o guiou por uma passagem no fundo da capela. Amim, embriagado, teve dificuldades de descer as escadas de pedra. Havia uma atmosfera que o desagradou e pensou ter visto desenhos e caracteres estranhos entalhados na parede, mas olhar para a namorada à sua frente o fez pensar em outras coisas. Enquanto desciam os degraus, ela falava, com sua voz macia.

Sabia que essa foi a primeira capela da cidade a ser construída? Ela só está de pé até hoje porque faz parte da fazenda doada para a construção do Colégio Marista. Naquela época, quando a cidade ainda era apenas um povoado, aqui era rota de comércio importante. O rio que passa duas ruas abaixo daqui convidava os viajantes a pernoitarem nas fazendas próximas. Mas o padre não era exatamente um homem honesto.

O que ele fazia?

Assaltava os comerciantes e estuprava suas mulheres.

Lilian parou de falar e, desceram o restante da escadaria em um silencio que fez Amim estremecer. Quando a escada terminou, estavam em uma câmera iluminada por atoches. À sua frente, se estendia um cemitério. O sangue de Amim gelou.

Aqui era onde ele enterrava suas vítimas.

E-eu nunca li sobre isso nos livros – Amim tentava não gaguejar, mas não conseguiu esconder o pavor.

Lilian andava entre os túmulos com uma tocha na mão.

É porque a história foi encoberta pela Igreja.

E o que aconteceu com o padre?

Lilian fez um sinal para que Amim fosse até onde ela estava, agachada em frente uma lápide. Ele obedeceu.

Essa foi sua primeira vítima de estupro. Maria Mendonça da Silva. Nascida em 1854, morta em 1871. Apenas 17 anos. Mas ele não a matou rápido.

Amim apenas a olhava, perplexo com a naturalidade com que a namorada contava aquela história pavorosa.

Ela era linda e sua inocência o fez enlouquecer. Então, ele a aprisionou aqui dentro, nessa câmara, onde todas as noites se satisfazia. Apenas a matou quando ela estava tão fraca e magra que lhe causava repulsa.

Lilian se dirigiu então para uma câmara especial, separada do cemitério por uma grade.

Como você sabe disso tudo, se a história foi abafada?

Sem responder, ela o convidou com o dedo para dentro da grade, com um sorriso capaz de fazer Amim sentir um misto de pavor e luxúria, além dos já habituais arrepios. Ele já estava viciado naquela sensação extasiante.

Ao entrar na grade, o horror do que viu fez o coração parar por um momento.

Havia vários corpos nus, ressequidos, amontoados e espalhados por toda a câmara. Amim podia jurar que estavam mortos há anos, até ver que se moviam debilmente, contorcendo-se e rolando um por cima do outro. Pareciam alheios, como se suas mentes não estivessem ali. Suas faces tinham todas a mesma expressão de horror e sofrimento. Lilian se debruçava sobre um deles, sugando uma espécie de vapor da boca do infeliz.

O mal cheiro do lugar e a visão que o cenário proporcionavam fizeram o estômago do gorducho revirar. Após vomitar, sentiu vergonha. Quando julgou ter visto cascos no lugar dos pés de sua namorada, Amim se virou para fugir mas a grade se fechou sozinha. Estava preso.

Amim observou aquelas criaturas semi-humanas. Parecia haver centenas delas. Corpos femininos e masculinos rolavam e se entrelaçavam em um emaranhado de braços, pernas, gemidos e fluidos corpóreos. Não sabia dizer se gemiam de prazer ou sofrimento. Ou ambos.

Ela sugou novamente um vapor da boca de um dos danados. Amim achou que ele “murchou” ainda mais, mas estava nauseado demais para confiar em seus sentidos e faculdades mentais.

Não é minha culpa. É o que eu sou. – disse ela, sem emoção. O que ela seria? Algum monstro libertado das profundezas pelos pecados do tal padre ancestral? Ou a própria Maria Mendonça, cuja alma não alcançou o piedoso abraço da morte? Ou… algo pior?

Lilian mergulhou em uma pilha de corpos que se tumultuaram, gritando, se mesclando e se devorando selvagemente. Amim percebeu que em meio a loucura, algo pútrido daquele amontoado de corpos penetrava no chão, a mesma podridão que se espalhava por toda a câmara rochosa. Imediatamente lembrou-se das lendas colegiais sobre uma contaminação na terra que se espalhava cada vez mais pelo colégio.

Não vai juntar-se a nós, meu pudinzinho turco? Não era isso o que você queria?

Lilian, mordendo o lábio inferior, engatinhou até onde Amim estava encolhido. Aproximou-se o suficiente para que ele sentisse seu hálito metálico, sangue se misturava ao batom e ele quase não notou a diferença. A camisa branca do uniforme tinha uma grande mancha vermelha; agora não havia mais contraste, a nova cor combinava perfeitamente. Ele estava assustado, lágrimas e coriza escorriam pelo seu rosto, mas ao sentir o calor do rosto de Lilian quase tocando o seu o fez se perder em seus pensamentos. Sentiu um misto de desespero e desejo. Sabia que não podia fugir. O que restava além de se entregar?

De repente, o Iphone tocou. Amim se assustou, como se despertasse de uma hipnose. Era a Sra. Gorducha, perguntando que horas chegaria em casa e, a propósito, qual o nome e endereço do amigo.

Lilian, nada paciente, encostou o corpo esbelto no pudinzinho turco, fazendo-o inclinar-se para trás até se deitar. Deitada sobre ele, brincava de aproximar os lábios do pescoço e roçar o nariz na orelha do gorducho. Ela se esfregava em Amim, ele se esfregava no próprio vômito enquanto sentia arrepios convulsivos.

Depois eu te ligo.

Foi o que simplesmente respondeu Amim antes de desligar o telefone e jogá-lo longe, abraçando Lilian desesperadamente. Ela se desvincilhou dos braços rechonchudos e sentou sobre seu peito.

A boa notícia, meu pudinzinho turco, é que faremos isso por muito tempo, todas as noites, nesse lugar. Na verdade, você não fará mais nada em sua vida, que será muito, muito longa.

Amim percebeu que cresciam duas asas negras nas costas de sua namorada. Sentiu a vida se esvaindo por cada poro de seu corpo causado os familiares arrepios. “Então era isso”, pensou ele. Seus pelos eriçavam e os poros dilatavam a cada inspiração profunda e prazerosa de Lilian. Um sutil vapor de energia vital saia de seu corpo, sendo sugado pelos lábios da namorada. Cada respiração dela era um arrepio mortal.

A má notícia é que será do meu jeito. E ao contrário de mim, você não vai gostar. Nem um pouco.

Por trás da face suave e doce de Lilian, banhada com o sangue de Amim, ele viu um rabo peludo se agitando no ar. “Todo esse tempo… era isso…”

Um abismo se abria à sua frente, do qual se erguia uma infinita coluna de fogo. Achou que estava em dois lugares ao mesmo tempo, depois achou que estava em lugar nenhum. Só então percebeu que ele e Lilian eram a mesma coisa e nada mais existia.

***

Os alunos do Colégio Marista começavam a se aglomerar no portão entrada. Restavam poucos minutos de liberdade para conversar e dar risadas antes do início das aulas. Era um dia ensolarado e Lucas e Mario aguardavam ansiosos pela chegada de Amim. Haviam preparado boas troças para o dia.

Lilian passava entre os alunos que a desejavam com os olhos. Se aproximou de Lucas e Mario e os encarou nos olhos.

Vamos dar uma festinha lá na velha capela, depois da aula, só nós três?

Lucas e Mario se esqueceram completamente de Amim e sorriram, sentindo-se superiores por receber tal convite da cobiçada garota. E franziram a testa ao sentir também um arrepio percorrer pela nuca e braços.

***

Amim não podia realizar mais do que débeis movimentos para um lado ou outro. A tortura de ter sua alma despedaçada e digerida aos poucos pelos vermes nas entranhas daquela garota seria maior do que poderia suportar se não houvesse a imagem sempre presente da doce Lilian.

Às vezes, ela sequer se aproximava dele, alimentando-se e saciando-se de outros que ali havia. Olhava para Amim enquanto se entrelaçava e sugava a vida de outros apenas para lhe causar ciúmes, o que era tortura ainda maior. Mas mesmo assim ele podia sentir o alívio da pele macia e o hálito metálico da amada, pois todos os que compartilhavam aquela prisão eram um só corpo, uma só mente, unindo-se à sua deusa em um eterno arrepio.

E, por isso, Amim sabia da história daquela capela na íntegra. Compreendeu todo o horror que cerca o lugar onde estudara. Abominável. Sorriu feliz por estar preso com a sua amada. Sua sorte fora muito melhor do que aquela que aguardava os alunos do Colégio Marista. A mancha no solo se espalhava cada vez mais. O horror estava próximo.

Mas ele estava a salvo, em eternos arrepios agonizantes.

 

******

Este conto faz parte da série Colégio Marista. São histórias fantásticas que ocorrem no cotidiano deste misterioso lugar povoado por alunos, professores e… coisas – vampirosbruxas,lobisomens,demôniosanjos,erêsinccubus,succubus e sabe Deus o que mais.

 

 

Anúncios

HQs do Abismo – Corredores Fantasmas

1 Comentário

Tempos atrás escrevi e publiquei aqui o conto Corredores Fantasmas. Algumas pessoas gostaram e o talentoso Wellington IRP me procurou e perguntou:

– Posso fazer uma HQ do seu conto pra treinar?

E obviamente respondi:

– Mas é CLARO!

Eu dei toda a liberdade para ele contar a história com a narrativa que achasse melhor, como geralmente faço. E não me decepcionei. Ele me enviou logo esboços das páginas e pouco tive a acrescentar a não ser alguns detalhes. Em cerca de dois meses, se não me falha a memória, ficou tudo pronto. Confira o resultado.

HQ online

E ainda nessa mesma parceria, uma nova HQ está a caminho. Mega-E é uma história cyberpunk/cybergoth ambientada em um Brasil corporatocrata às portas do pós-humanismo. Confira os primeiros estudos de personagens:

Estudo de personagens de HQ cyberpunk

Estudo de personagens de HQ cyberpunk

Estudo de personagens de HQ cyberpunk

Estudo de personagens de HQ cyberpunk

Contos do Abismo – Cartas do Vampiro

16 comentários

Cartas do Vampiro

(Crônicas Sobrenaturais do Colégio Marista)

Trilha sonora: Lacrimosa – Alles Lüge

Carta - Conto Cartas com o Vampiro

Com mãos trêmulas e o coração na boca, ela abriu o envelope negro. Era mais uma carta misteriosa e romântica.

Rúbia já sabia que receberia uma carta do seu admirador secreto após o intervalo. Todas as noites encontrava um envelope preto dentro de seu caderno. Ela não fazia ideia de quem era seu correspondente, mas não se esforçava para descobrir. Sempre passava todo o intervalo na cantina, cheia de expectativa, conversando com as amigas.

Morria de vontade de espiar a sala de aula para ver quem colocaria o envelope em suas coisas, mas queria alimentar aquela sensação empolgante de mistério. Queria jogar o jogo dele. Além do mais, ele poderia muito bem pedir para outra pessoa colocar a carta em seu lugar, para não se expor. Era um verdadeiro romântico. Apenas um verdadeiro romântico escreveria cartas ao invés de e-mail ou tweets.

Desdobrou as folhas carmesim, onde estavam redigidas linhas douradas que não economizavam elogios à garota. Mas não era pelas belas palavras que Rúbia ansiava para ler, e sim sobre o maior receio do remetente – ele era um vampiro, e jamais poderia arriscar um encontro com sua amada.

Claro que nas primeiras cartas que recebeu, Rúbia não deixou de soltar alguns sorrisos irônicos ao ler a palavra vampiro. Pensou que fosse alguma brincadeira de alguém que soubesse que era fã de Ane Rice e Adriano Siqueira. Não seria difícil deduzir, afinal, sempre que achava que passaria despercebida pela diretora, usava roupas pretas por cima do uniforme, maquiagem escura e pesada e acessórios estranhos.

Mas não demorou para que as correspondências seguintes a deixassem atônita, com detalhes minuciosos sobre a vida como uma criatura da noite. Claro, tudo aquilo poderia ser inventado, mas vinha acompanhado de um desespero e sofrimento tão convincentes que aprisionaram a jovem garota em um mar de compaixão e compreensão. Ser um vampiro era tão doloroso e romântico que a fez se derreter, como quando leu Vampiro Lestat pela primeira vez.

Foi quando ele começou a adivinhar seus pensamentos que ela o levou realmente a sério. Ele respondia, nas cartas, com exatidão, às perguntas que ela fazia em pensamentos. Ela jamais imaginara que vampiros pudessem fazer isso, e achou que aquilo tirava um pouco do charme dessas criaturas, mas foi assim que ela descobriu muitas coisas sobre ele.

A primeira coisa foi que ele era um vampiro jovem, havia pouco tempo que fora “abraçado”, como gostava de se referir à sua transformação. Se sentia sozinho, solitário e assustado, e sabia, por Deus, sabia que ela seria a única a compreendê-lo, ajudá-lo. Não apenas por ela ser fascinada por filmes de vampiros, mas porque a conhecia. Era bondosa. Por isso a amava.


Rúbia observou todos os alunos do colégio que pôde. Qualquer um que fosse mais pálido que o normal poderia ser seu admirador. Mas se decepcionou quando veio a carta dizendo que nem tudo nas histórias sobre vampiros era verdade e a recomendação para não se apegar a nenhum estereótipo.

Foi aí que ela resolveu fazer perguntas propositalmente, com o pensamento. Perguntou quem ele era, mas a única resposta que obteve foi um longo e triste discurso sobre o medo de se aproximarem, de terem um contato físico – embora a amasse. Também leu algumas revelações preocupantes sobre uma forte e implacável Irmandade de Vampiros, que jamais permitiam que os humanos soubessem da existência deles. Algo parecido com um jogo que Rúbia gostava, chamado “A Mascara”. Tinha medo, dizia o jovem vampiro, de que ela, descobrindo sua identidade, fosse morta – ou pior, abraçada – pelos vampiros da Irmandade. Nenhum humano jamais poderia saber da existência de vampiros. Se isso acontecesse, deveria se tornar um deles. Se um vampiro quebrasse o sigilo, seria destruído.

Mas a curiosidade e entusiasmo de Rúbia era maior que o medo. Ficava imaginando quem seria, esperando que assim ele ao menos desse alguma pista. Podia ser qualquer um. Talvez fosse até uma garota, o que, pensou, não seria um problema. Rúbia já estava mais que apaixonada; estava enlaçada e enfeitiçada, fosse quem fosse. Estava louca para se entregar a qualquer um que se revelasse ser seu morceguinho misterioso. Ou morceguinha.


No dia seguinte, Rúbia não recebeu nenhuma carta. Procurou no caderno, no estojo, na mochila, em todo lugar. Nada. Talvez ele tivesse faltado à aula. Mas não houve cartas no outro dia. Nem no outro. Semanas se passaram sem nenhuma correspondência. Ela pensava nele, mandava “mensagens telepáticas”, e nada.

Estava desesperada. Emagreceu seis quilos e não conversava mais com ninguém. Suas twittadas eram melancólicas, beirando o mórbido. Suas amigas começaram a criticá-la, dizendo que estava obcecada com o novo galã de filme de vampiros da moda. Elas nem suspeitavam do quanto estava tão certas e tão erradas ao mesmo tempo.

Será que ele havia sido pego pela irmandade dos vampiros? Descobriram que revelara a ela a existência dos vampiros e fora pego. O que teriam feito com ele? Talvez ele fora punido e agora estava afastando-se de sua paixão. De qualquer forma, a culpa era dela. Rúbia martirizava-se por isso.

Então, um bilhete. Curto e simples, mas de forma alguma decepcionou a destinatária. As letras lindamente desenhadas em papel escarlate sugeriam um encontro. Sentiu o coração quase rasgando o peito. Como seria um encontro com um vampiro? Seria aquilo verdade? Ela sempre sonhara com aquelas criaturas sedutoras e fascinantes, e agora estava prestes a conhecer uma que a amava.

O encontro foi marcado no dia seguinte. Seria após a aula, em uma rua que nunca ouvira falar mas, segundo as instruções da carta, ficava a três quarteirões do colégio. Por um momento, hesitou. Não tinha medo, Rúbia confiaria sua vida a ele. Mas poderia ser uma armadilha da Irmandade. Ela sabia sobre a existência dos vampiros e precisava ser eliminada. Ou abraçada. A segunda opção não seria exatamente um problema. Pensando assim, se dirigiu ao endereço depois de se despedir das amigas, fazendo-as ficar preocupadas. Provavelmente seria a última vez que as veria.


A rua era escura e estreita, deserta. Todas as luzes públicas estavam apagadas. Rúbia quase recuou, mas o desejo de conhecer seu admirador vampiresco era tanto que avançou em passos vacilantes. Um vulto surgiu detrás de um poste.

Fique aí.

Era ele! Rúbia estava frente-a-frente com um vampiro! Estremeceu ao pensar o que seria dela e adorou a sensação de perigo iminente. Já não se importava muito se fosse mordida, transformada ou morta. Apenas desejava se entregar de corpo e alma para que fizesse o que quisesse.

É você?

A voz era trêmula, incontrolável. Rúbia pensou que ele perceberia sua emoção mas se lembrou que ele lia seus pensamentos, de qualquer forma. Ele sabia muito mais do que sua voz poderia denunciar. Sabia que ela lhe pertencia. Talvez por isso não houve resposta. Ela continuou.

Esperei tanto tempo pra te ver!

Eu também. Não podia mais viver sem falar com você pessoalmente, olhando em seus olhos.

Mas ainda não consigo ver os seus – disse Rúbia, se aproximando do vulto.

Você não iria querer me ver…

Por que? – interrompeu – Porque você é um vampiro e eu não posso saber disso? Porque você não pode ir contra as regras? Por ter que me transformar se eu souber quem você é?

Antes fosse essa minha maior preocupação…

Por Deus, isso é o que eu mais quero! Olhar seu rosto, seus olhos, e ser abraçada, me tornar imortal como você – desabafou, finalmente, dando passos decisivos em direção a ele. Mal teve tempo do vampiro se esconder. Rúbia estava a um palmo de distancia, expressão apaixonada, narinas dilatadas. Então ela finalmente viu quem era.

Ai meu Deus… – sussurrou ela, quase sem perceber.

Rúbia gritou. Não de medo ou susto. Mas de ódio.

Você não! Não, não, é mentira!

Eric, o grande, gordo, lerdo e estúpido nerd, com sua cara de abobalhado, olhava para ela, não surpreso, mas entristecido. Já esperava por essa reação de sua amada.

As classes de Rúbia e Eric tinham aulas de educação física juntas, e ela era a única que não ria das gozações e abusos que ele sofria dos colegas. Não ria porque ele era a única pessoa que Rúbia realmente desprezava. Sem motivo algum. Simplesmente por ser o que era – um perdedor que nunca tomava atitude alguma para mudar sua vergonhosa situação. Não era homem o suficiente.

Jamais cogitou que ele fosse o seu admirador. Por que deveria cogitar? Que tipo de vampiro fracassado abraçaria alguém repulsivo como ele? Lembrou-se das histórias em que vampiros apenas escolhiam os belos e sedutores para viver eternamente. Sabia agora que escritores de terror são mentirosos. Alguém cometera o imperdoável erro de eternizar a escrotidão que era Eric.

O vampiro, atrás do poste, se encolhia de vergonha. De alguma forma, sabia que aquilo aconteceria. Mas ainda assim, tinha alguma esperança de que desse certo, que Rúbia fosse a boa pessoa que ele via, que se compadeceria dele se conhecesse seus dramas e dilemas. Mas ela parecia longe de estar compadecida. Estava furiosa e avançava para cima dele, desferindo tapas e socos descoordenados. Eric, pateticamente, caiu, tentando proteger o rosto das unhas afiadas e dos acessórios metálicos nos dedos da agressora.

Enraivecida pela decepção, Rúbia pegou a tampa de uma grande lata de lixo e com ela atingiu o rosto do vampiro várias vezes. Ele ficou ali, caído, enquanto ela buscava algo mais eficaz e voltou com um tijolo. Uma grande poça se sangue brotava no chão enquanto Rúbia, gritando, esmagava a cabeça de Eric.

Se você realmente pode ler meus pensamentos, deveria saber que ninguém – ninguém – gosta de você. Não sabe o quanto eu te odeio?

Eric mal podia erguer a cabeça, mais devido à humilhação do que aos ferimentos. Muito menos pôde dizer alguma coisa. Apenas conseguiu chorar. Rúbia perdeu a paciencia.

Ah, por favor! E que tipo de vampiro emo é você? Vai ficar aí chorando? A culpa é toda sua!

Eu… pensei que… você gostando tanto de vampiros e… me conhecendo melhor… talvez nós pudessemos… você sempre sonhou com a eternidade, então eu… pedi para ser transformado… eu fiz isso por você…

Rúbia, com uma expressão de horror, o interrompeu, gritando.

O que? Eu? Eu e… você? Eternamente? Meu Deus… que… que nojo! Você é louco de fazer isso!

Por favor, Rúbia… não grite… eles podem estar aqui nesse exato momento.

Eric, o vampiro, estava tremendo de medo de estar sendo vigiado. Rúbia não deixou de pensar que ele se parecia mais com uma criança levada que comera doces antes do almoço e agora tentava esconder o pacote vazio dos pais. Quase sentiu pena daquela criatura.

Quase.

Espero sinceramente que eles estejam aqui.

Espera! Você precisa saber quem são eles… você… todos do colégio estão em perigo…

Rúbia deu as costas para Eric e foi embora.

Rúbia! No colégio… Tenha cuidado com a…

Eric se calou, apavorado. Inúmeras sombras surgiam ao seu redor e tomaram formas físicas. Rúbia não ouviu seus gritos abafados e não percebeu que vigiavam sua casa, enquanto rasgava seus posteres e livros de vampiros. Nunca mais queria saber deles.

******

Este conto faz parte da série Colégio Marista. São histórias fantásticas que ocorrem no cotidiano deste misterioso lugar povoado por alunos, professores e… coisas – vampirosbruxas,lobisomens,demôniosanjos,erêsinccubus,succubus e sabe Deus o que mais.

Contos do Abismo – Morte 2.0

8 comentários

Morte 2.0

(Crônicas Sobrenaturais do Colégio Marista)

Trilha sonora: Therion – To Mega Therion



A professora Taís não queria demonstrar o mal-estar diante dos alunos.

Disfarçou bem durante toda a sua aula de química, dando uma atividade qualquer em grupo para a que a classe não prestasse atenção nela.

Mas Clarisse prestava muita atenção na professora. Ela e todos os rapazes que não se preocupavam mais com as notas do que com suas fantasias que seriam compartilhadas entre os mais confidentes durante o intervalo. Eles achavam justificável ter química como matéria favorita por causa da professora; afinal, ela não era apenas linda como também se vestia muito bem e usava um perfume embriagante. Era comum os garotos irem até a mesa da professora, com caderno na mão e a desculpa de precisar tirar alguma dúvida, apenas para sentir seu cheiro e espiar os decotes mais de perto. Era a diva da oitava série. A ousada desafiadora das regras do Colégio Católico Marista, para o desespero das madres que o dirigiam.

Já Clarisse a encarava de outra forma. Considerava o comportamento masculino de sua classe um absurdo, mas pior ainda era a professora que, ao invés de se dar ao respeito, usava decotes e maquiagem sedutora para aliciar adolescentes imberbes.

Taís não reparou se alguém estava olhando ou não. Sentia náuseas e dores de cabeça. Repentinamente, levou a mão a boca e correu em direção à porta. Viu que não teria tempo de chegar ao banheiro e vomitou ali mesmo, no cesto de lixo, todo o seu café da manhã. E sangue. Muito sangue.

Quando ela foi levada para o hospital, o tipo de comentário na sala era de que a professora de química estava grávida, o que decepcionou os garotos mais sonhadores. Mas todos ficaram satisfeitos por ganharem uma aula vaga.

Clarisse correu para a biblioteca com seu netbook na mochila. Não acreditava que aquilo funcionara! Empolgada, acessou pelo sinal wi-fi do colégio o site que algum perfil anônimo do twitter lhe indicara semanas atrás: O Voodoo Online.

Voodoo Online era uma espécie de comunidade virtual. Como Clarisse sempre fora viciada em Second Life e Colheita Feliz, teve muita facilidade para entender o funcionamento daquela que se tornara a página inicial do seu navegador. Voodoo Online oferecia todas possibilidades da religião Voodoo, mas sem a necessidade de adquirir as ferramentas necessárias – estava tudo ali, na tela do computador. Com um clique, Clarisse podia escolher o que seria necessário para o novo ritual. E o melhor de tudo: interagir com usuários do mundo inteiro.

Fez o login no site e esperou o ambiente de realidade virtual em 3D ser carregado. Seu avatar, uma mulher adulta, surgiu na sala onde realizava os rituais. Selecionou “Farinha de Milho” na janela de ítens e “Pincel” na barra de ferramentas. Com a farinha, desenhou um emblema no chão. Precisava de mais “Rum”. Acessou a página da comunidade do site e comentou rituais de suas amigas e até participou de um deles, tudo para juntar pontos. Com os novos pontos, chamados voduns, ela pôde navegar com o avatar pela tenda do NPC Hugan e comprar uma garrafa rum e velas vermelhas. Ainda sobraram alguns voduns que colocou no cofre para futuramente adquirir o livro de feitiços nível seis.

Levou seu avatar novamente para sua sala e espalhou o rum sobre o desenho que fizera com a farinha de milho. Abriu o player e selecionou uma música para iniciar a seção. Músicas eram necessárias no ritual e custavam uma grande quantidade voduns, mas podiam ser adquiridas em mp3 por dinheiro real pago através do paypal. Clarisse deixara de lanchar muitos dias no colégio para ter uma coleção delas em seu iPod.

Sons de tambores e cantos africanos foram entoados. Clarisse usava fones de ouvido para não chamar atenção de ninguém. Convidou algumas amigas adicionadas em seu perfil que estavam online no momento e vestiu seu avatar com a roupa apropriada. Não eram muito boas, mas teria melhores quando seu perfil atingisse um nível mais alto. Cada ritual no Voodoo Online lhe daria uma quantidade de experiência, que podia trocar por voduns ou para subir níveis. Quanto maior o nível do usuário, maior os níveis de livros de rituais poderia adquirir. Clarisse estava no nível cinco.

Selecionou uma dança específica entre as ações básicas do avatar que vinham no pacote gratuito para iniciantes. Não demorou para que o avatar de Legba, o intermediário dos espíritos, surgisse em sua tela.

Na hora do sacrifício, Clarisse selecionou uma criança virtual recém-nascida que lhe custou 200 voduns. Selecionou a adaga na barra de ferramentas e fez cortes no bebê com alguns cliques. Abaixou o volume do fone de ouvido, pois o som era estridente. A criança eletrônica deveria sofrer tanto quanto Clarisse gostaria que a professora de química sofresse, além de gritar para que os espíritos acordassem. Havia uma barra que mostrava o nível de sofrimento, variando do “confortável” ao “insuportável”.

Abriu um corte no abdome do bebê e tirou as tripas. Colocou-as, arrastando com o mouse, dentro do item “boneco de cera”, que costou 20 voduns. As agulhas estavam prontas para ser usadas. Tudo estava funcionando e o loa surgiu na sala virtual. Clarisse enviou uma foto escaneada da professora e digitou: Taís de Abreu.

No dia seguinte, o colégio estava em luto. A professora Taís morrera no hospital, um dia depois de ser internada. As freiras sussurravam pelos cantos como o castigo de Deus fora implacável com a agitadora indecente.

A oitava série B deveria ter aula de química, mas sua professora substituta ainda não havia sido escolhida. Os alunos foram dispensados para um intervalo. Clarisse, sorrindo, correu até suas amigas dizendo o quanto o Voodoo Online era fantástico. Elas riram satisfeitas, mal acreditando o que as entranhas de uma criança virtual, feita de bytes, pixels e polígonos eram capazes de fazer a alguém.

Uma das garotas, evangélica, fez menção de questionar se o que faziam era correto. Clarisse lhe explicou, com poucas e convincentes palavras, que “tudo o que você fizer, seja bom ou ruim, é plano de Deus”. A evangélica sorriu.

Olharam para os meninos decepcionados com a ausência da mulher que habitava em suas fantasias. Em poucos dias, Clarisse e suas amigas teriam voduns o suficiente no Voodoo Online para adquirir o “Livro Nível Seis – Feitiços de Amor”. Então, não haveria professoras sensuais que pudessem roubar os olhares e sonhos dos rapazes.

******

Este conto faz parte da série Colégio Marista. São histórias fantásticas que ocorrem no cotidiano deste misterioso lugar povoado por alunos, professores e… coisas – vampirosbruxas,lobisomens,demôniosanjos,erêsinccubus,succubus e sabe Deus o que mais.


Contos do Abismo – Corredores Fantasmas

8 comentários

Corredores Fantasmas

(Crônicas Sobrenaturais do Colégio Marista)

Trilha sonora: Theatre of Tragedy – Siren


Essa não, essa não!

Marquinhos estava apavorado. Corria pela Avenida Presidente Vargas como quem faz maratona – pelo menos foi o que ele pensou. A respiração ficava cada vez mais pesada, os pulmões ardendo.

Estava atrasado para o primeiro dia de aula.

Não que isso traria algum problema. Sabia que no primeiro dia não haveriam muitas regras. Era dia de conhecê-las para então serem seguidas em todos os outros dias do ano letivo. O medo de Marquinhos era outro.

Entrou na rua Prestes Maia, correu mais um quarteirão e logo deu de cara com a imponente construção onde estudaria aquele ano. Era um complexo de prédios antigos, marrom, arquitetura inglesa, algumas imagens religiosas. Por trás do prédio à sua frente, Marquinhos via a enigmática ponta de uma pirâmide cristalina. O portão ainda estava aberto sob o arco metálico no qual se desenhava as letras “Colégio Marista”.

Não havia uma única viva alma. O completo silêncio denunciava que a chamada dos alunos no pátio para distribuí-los em suas salas de aula já acontecera. Todos já haviam sido encaminhados e já estavam conhecendo seus professores.

Preferiu que o portão estivesse fechado e fosse obrigado a voltar para casa.

Embora Marquinhos sempre sonhara em estudar no Marista ao lado da elite da cidade, estava agora intimidado. Não conhecia o que havia por trás daqueles pesados portões de aço. Se sentia derrotado. Nas vésperas do primeiro dia de aula, fizera o caminho de sua casa até o colégio sete vezes para que não se perdesse logo no primeiro dia. Mas cochilar no ônibus e descer no ponto errado o fez caminhar quarenta e cinco minutos a mais do que o cronometrado. Agora estava sozinho em território estranho, sem noção alguma do que fazer.

Ou melhor, era óbvio que tudo o que precisava era ir até a secretaria e perguntar onde era sua sala. A secretária perguntaria seu nome, ao que ele responderia “Marcos Assunção”. Ela lhe diria onde teria que ir, provavelmente o acompanharia para que não se perdesse nos corredores. O introduziria na sala, interrompendo a aula, todos o olhariam, rindo, e logo depois o episódio seria esquecido. Fim.

Mas Marquinhos tinha um inexplicável pavor do primeiro dia de aula. Não era raro, nas férias de dezembro, sonhar com esse dia. Nos sonhos, ele sempre chegava atrasado e ninguém apareceria para guiá-lo. Sempre acordava com a sensação desesperadora de estar em um lugar estranho sem saber onde ir ou o que fazer. Perdido.

Procurou não pensar nisso. Arrumou o cabelo encaracolado e entrou no prédio, encarando o imenso pátio que se estendia à sua frente. Ao redor, algumas salas com portas fechadas. Na parede do lado direito havia um grande mural com os nomes dos alunos e suas respectivas classes. “Que sorte”, pensou. Bastava encontrar seu nome e depois procurar sua sala.

Mas para sua surpresa, não encontrou seu nome. Procurou em todas as classes da sexta série e não havia nenhum Marcos Assunção. Certamente alguma secretária incompetente se esquecera dele ao fazer a lista.

Desanimado, perambulou pelo pátio forrado com paralelepípedos e cercado por plantas bem podadas formando um pequeno muro. Tentava criar coragem para procurar a secretaria e perguntar sobre sua sala. Ficou apavorado. E se dissessem que não estava matriculado? Que se enganara, que não havia nenhum Marcos Assunção, que não deveria estar ali? E se não estivesse mesmo matriculado? Se sua mente houvesse pregado uma peça, fazendo-o acreditar que estudaria no colégio dos seus sonhos quando na verdade ainda estudava no Colégio Municipal São Vicente? E se estivesse enganado e aquele não fosse o dia certo do início das aulas?

Estava paranóico e cada vez mais tinha medo de procurar alguém e levar uma bronca. Ou de rirem dele.

Quando se virou, já pensando em ir embora dali, se deparou com um rosto lívido que o encarava. Deu um salto para trás. O coração disparou e sentiu o sangue fugir do rosto.

Era uma garota. “Que sorte”, pensou, recobrando-se e esboçando um sorriso. Não ficaria sozinho, enfim. Ela sorriu de volta, abertamente, exibindo um par de covinhas sapecas nas bochechas.

A menina simpática tinha ar de malandrinha, olhos vivos e cabelos dourados, com cachinhos nas pontas. Marquinhos sentiu o coração disparar novamente, mas agora por outro motivo. Os olhos dela eram brilhantes e o encaravam, firmes.

Também chegou atrasado?

Ah, ela quebrara o gelo. Marquinhos agradeceu por ter companhia. Talvez fosse uma veterana do Marista e soubesse lhe guiar pelo colégio.

É… o ônibus demorou a passar e perdi a hora – mentiu ele.

Já encontrou seu nome na lista? – disse ela, dirigindo-se ao mural.

Hã… sim, claro. E o seu?

Aqui. Fernanda dos Santos. Classe “6ª A”.

Que ótimo, é a minha sala também! Você sabe onde fica?

Claro! Vem comigo.

Tudo dera perfeitamente certo. Claro que, ao mentir sobre sua sala, Marquinhos calculara duas possibilidades. Ao chegar na classe, poderia descobrir que seu nome estava na lista de chamada e que realmente estava matriculado na “6ª A”. Mas o mais provável era que, se não estava na lista do mural,também não estivesse na lista de chamada da 6ª A ou de nenhuma outra sexta série. Nesse caso, argumentaria o quanto o colégio fora desorganizado e incompetente ao informar corretamente seus alunos e exigiria que fosse colocado na “6ª A” devido ao seu histórico escolar e pela companhia agradável de Fernanda. Bem, era melhor que esse segundo motivo fosse omitido.

Marquinhos seguiu a garota pelo pátio enquanto conversavam. A companhia dela era agradabilíssima e aquecia seu coração. Quase não notou a imponente arquitetura do colégio e nas diversas imagens de Maria e do Menino Jesus espalhadas por todo canto quando adentraram os imensos corredores. As portas de ambos os lados, uma atrás da outra, estavam todas fechadas e o silêncio em todo lugar onde percorriam era sepulcral. Mas ele não reparou mais nisso quando Fernanda começou a lhe contar sobre suas histórias no Colégio Marista nos anos anteriores, suas amigas, professores, as peripécias e molecagens que gostava de comandar…

As histórias que ela contava pareciam dar movimento aos corredores sem-vida. Marquinhos quase podia ver crianças correndo, dividindo lanches e brincando, enquanto Fernanda e sua amigas planejavam alguma malandragem com o zelador, que morava no quintal do colégio, do outro lado do prédio. Podia visualizar os professores e diretores enlouquecidos com sua mania de usar o uniforme por baixo de roupas comuns, de levar livros românticos para ler durante as aulas chatas, mascar chiclete e humilhar meninos que tentavam alguma gracinha.

Eles pareciam amigos de muitos anos e Marquinhos não estranhou quando reparou uma cicatriz um pouco abaixo das clavículas delicadas.

Os corredores eram cada vez mais extensos e agora pareciam um labirinto sem fim. Gradualmente, Marquinhos viu surgir buquês de flores por todo lado. Estranhou por um momento e fez menção de olhar para trás, mas Fernanda o surpreendeu, dando gritinhos alegres por se lembrar de mais um episódio divertido de seus dias no Marista. A voz doce e alegre o enfeitiçava por completo e seus gestos, o encantavam. Ele poderia ficar ao seu lado, conversando, pelo tempo que pudesse. Já não pensava mais na lista de nomes ou na agitação do primeiro dia de aula. Estava em perfeita paz.

Ninguém os ouvia, ninguém os via. Parecia que estavam caminhando pelos corredores floridos e desertos ha muito, muito tempo. Algumas vezes, Marquinhos achava que vira pessoas andando por todo lado, o sinal tocando, professores e alunos correndo. Mas logo que voltava a prestar atenção à voz de Fernanda, tudo voltava a ser como antes – infindáveis corredores cinzentos e sem vida.

Os anos se passaram. Crianças vinham para os seus primeiros anos escolares, se formavam e nenhum deles deixou o Marista sem ao menos um dia sentir um calafrio na espinha ao passar pelos corredores do primeiro prédio ou sem achar ter visto um garoto de cabelos encaracolados caminhando sem uniforme, como se fosse o primeiro dia de aula procurando sua sala. Outros diziam ter visto uma menina loira e de covinhas nas bochechas ao seu lado, sorrindo em meio aos buquês.

Durante décadas a historia assustou e fascinou alunos, ganhando inúmeras versões. Mas todas elas traziam à memória o dia mais vergonhoso do colégio Marista – o assassinato de uma aluna pelo zelador do colégio, em 1979. O corpo jamais foi encontrado. Muitos diziam que estava enterrado em algum lugar das dependências do Marista. Os mais antigos funcionários conheceram a amável vítima e guardavam, com carinho, recortes de todos os jornais e revistas onde a notícia fora publicada na época em curtas notas:

A menor Fernanda dos Santos, 13 anos, aluna da sexta série A do Colégio Marista, foi morta por João Luís da Costa, zelador da instituição, no primeiro dia de aula, segunda-feira. Os motivos são desconhecidos. Amigas da vítima afirmam que Fernanda, aluna do Marista desde a primeira série, gostava de pregar peças no zelador, mas que ele nunca pareceu se incomodar com isso. Querida por todos, embora desse trabalho aos professores, Fernanda recebeu homenagens de alunos e funcionários do colégio, que cobriram com flores os corredores do prédio onde a aluna costumava brincar. João Luís foi condenado a 20 anos de prisão e está sendo investigado por suspeita de estupro e pedofilia.

Os funcionários lembravam-se da menina com tristeza e não davam crédito às histórias de fantasma, mas se perturbavam ao ouvi-las, pois não havia foto ou registro público que descrevesse Fernanda com tanta exatidão quanto era retratada pelos alunos que afirmavam terem-na visto.

Segundo as lendas que percorrem as salas de aula, o fantasma continua pelos corredores, procurando pela companhia de alunos recém-matriculados no colégio. Os novatos sempre ouvem essa história no seu primeiro dia de aula como um alerta para não caminhar com nenhuma garota de covinhas pelos corredores. Os céticos riem, mesmo quando, ano após ano, para a perplexidade das secretárias embaraçadas, o nome de Fernanda dos Santos se encontra na lista do mural, matriculada na “6ª A”.

******

Este conto faz parte da série Colégio Marista. São histórias fantásticas que ocorrem no cotidiano deste misterioso lugar povoado por alunos, professores e… coisas – vampirosbruxas,lobisomens,demôniosanjos,erêsinccubus,succubus e sabe Deus o que mais.

Contos do Abismo

5 comentários

Contos - Colegio Marista

Estreando os Contos do Abismo, apresento-lhes a série “Colégio Marista – Contos Sobrenaturais“.

Como o nome sugere, são histórias fantásticas que ocorrem no cotidiano deste misterioso lugar povoado por alunos, professores e… coisas – vampiros, bruxas, lobisomens, demônios, anjos, erês, inccubus, succubus e sabe Deus o que mais.

Por alguma razão, eles estão ali. Que mistérios fazem com que o Marista seja tão interessante para essas criaturas? O que fazem ali todos eles, reunidos no mesmo lugar? Coincidência? Conspiração? Por que nunca houve uma investigação apurada sobre as mortes e desaparecimentos nas dependências da instituição? Neste colégio, ninguém está seguro. Nem mesmo as criaturas sobrenaturais que o frequentam.

Cada conto é independente, se encerra em si mesmo e apresentará uma nova criatura, novos personagens. Aos poucos, serão revelados detalhes sobre uma trama maior, interligando todas as histórias, como um romance fix-up.

Essas histórias não tem muita pretensao além de praticar minha escrita, entreter você e saber sua opinião. Portanto, acompanhem e comentem. Ajudem um escritor a evoluir.

Aqui colocarei a lista dos contos à medida que forem postados, na sequência:

Conto #1 – Corredores Fantasmas

Conto #2 – Morte 2.0

Conto #3 – Cartas do Vampiro

Conto #4 – A Capela

 

%d bloggers like this: