O Banquete da Diva

(Leia ouvindo: Kellee Maize – I Insist)

O show estava prestes a começar e Joana estava explodindo de emoção. Seus gritos de êxtase, porém, se perdiam no coro de berros descontrolados da multidão. Uma melodia produzida por sintetizadores aumentavam ainda mais a expectativa e quase fazia com que os milhares de fãs presentes suplicassem para que Lyzza Connor entrasse no palco.

Quando a melodia chegou ao clímax, alcançando sua nota mais alta, Joana soube que a diva estava prestes a aparecer. A “musa do pop” emergiu do palco, de costas para o publico, uma nota prolongada acompanhou os gritos e aplausos ensurdecedores da multidão. Joana competia com as garotas ao seu redor, procurando gritar o mais alto possível para chamar a atenção da musa que, indiferente, começava a recitar os versos, marca registrada da artista em suas apresentações.

I want you, don’t metters who you are
I need you, wherever you are
I love you, becouse I love me
And you and me are the same
My free and uncheined soul will cath you
And your soul will be closed inside me
Forever.

Joana se sentia presa e limitada. Não queria apenas gritar. Queria sair de seu corpo, expandir sua essência por todo hall e abraçar com a alma sua deusa. De alguma forma, se sentia conectada com Lyzza Connor, como se ela a conhecesse e soubesse de seu desejo de alcançá-la.
A diva cantava acompanhada de diversos dançarinos, em perfeita sincronia de movimentos e gostos que mais pareciam uma linguagem estranha mas, ao mesmo tempo, perfeitamente compreensível ao espírito.

Joana tentou se aproximar ainda mais do palco. Precisava sentir tocá-la, senti-la, misturar seu suor ao dela, tornar-se uma com ela.
Foi nesse instante que Lyzza Connor a viu, e cantou fixando seu olhar em seus olhos, provocando-a, sensualmente. Joana abandonou por completo a razão e abriu caminho em direção ao palco, afastando a multidão efervescida. Mas como era pequena e frágil, foi cada vez mais pressionada e esmagada pelos rivais que tinham o mesmo objetivo. Sufocada, caiu, com dificuldades de respirar. Joana não sentiu quando foi pisoteada, apenas se desesperou por estar cada vez mais incapacitada de atingir seu objetivo.

Os seguranças tentaram acalmar o público e impedi-lo de atravessar a faixa de contenção. Empurravam a massa descontrolada e, com isso, Joana conseguiu espaço para se levantar. Com sangue escorrendo pelo rosto, as pessoas à sua volta se afastaram, assustadas. Avançou em direção à diva, sendo agora interrompida pelos seguranças, que a empurravam de volta para a multidão, que por sua vez a empurravam para os lados como as ondas do mar.

Um tumulto se formou ali perto. Joana aproveitou para ultrapassar a faixa e escalar o palco, invadindo-o. O publico aplaudiu sua ousadia e vitória.

A diva, impressionada com o esforço de sua fã, parou de cantar e caminhou até ela. Um grande silencio se fez, exceto pelos instrumentos que continuavam a tocar um ritmo dançante. Joana correu em direção a ela e a abraçou.

***

Lyzza Connor devolveu o abraço da fã e lhe deu um beijo molhado. O publico aplaudiu a atitude da cantora e a sorte da garota, que parecia perder as forças e escorregava dos braços de sua diva. Antes de soltá-la, Kelly passou os dedos em seu pescoço, deslizando suavemente pela nuca. Joana caiu, inconsciente.

Um segurança correu pelo palco e carregou a garota desmaiada, enquanto Lyzza Connor voltava a cantar, executando sinais com as mãos. Quando sentiu que era o momento mais adequado, durante a coreografia, formou um triangulo com as mãos e as posicionou sobre a testa.
Fechou os olhos e imediatamente uma imagem se formou em sua mente. Via tudo com uma coloração azulada – o palco, seus dançarinos, a estrutura do ginásio, mas cada pessoa do público tinha uma aura vermelho-sangue. Os mais extasiados emitiam uma cor maior e mais brilhante. Lyzza Connor concluiu que seu público ainda não estava preparado para o ritual. Desfez o triangulo de dedos e continuou seu show cantando Sickness.

Algumas canções depois, viu Joana assistindo, emocionada por estar assistindo ao show de camarote. Se impressionou com a velocidade com que a fã se recuperara. Uma pessoa comum levaria horas para recobrar as energias após seu toque.

Chegara o momento da principal musica da turnê, recém-lançada em single. Os coreógrafos, durante a dança, carregavam objetos para o palco, que fariam parte da encenação. Seria o clímax e o público precisava estar pronto no último refrão da música. No centro do palco foi colocado a estátua de uma espécie de animal cornudo bípede.

A “musa do pop” começou a cantar a introdução de “Call me, Love me, Take me”, sem nenhum acompanhamento. Novamente, Kelly posicionou as mãos em triangulo sobre a testa e viu que a aura avermelhada do publico se acentuava lentamente enquanto terminava o trecho.

Os instrumentos e sintetizadores começaram a acompanhar a melodia da primeira estrofe e a cantora, junto de dezenas de dançarinos, fazia movimentos sensuais e provocantes enquanto ela repetia a frase “no heart, no guilty”. Fez novamente o triangulo na testa, fechou os olhos, e verificou que a aura dos seus fãs estava dilatada, fruto do desejo, da adrenalina produzida pelo ritmo, e da adoração à diva. Mas Kelly estava insatisfeita. Sabia que aquele público era muito devoto e poderia oferecer a melhor refeição de sua carreira.

Percebeu então que a energia estava escoando para um ponto oposto. Rapidamente localizou um dos seguranças, do outro lado do estádio, no alto da arquibancada, roubando seu jantar. Em um acesso de raiva, fez alguns símbolos com as mãos, que mais pareciam parte da coreografia, e emitiu uma rajada psíquica. O segurança, sem nenhum tipo de escudo ou defesa, foi arremessado para trás. Um amador, concluiu ela. Fez sinal para que todos os instrumentos parassem e cantou com seus fãs. Depois, deixou-os cantando sozinhos, enquanto tirava a fina capa branca que cobria seu corpo, ficando apenas com roupas íntimas.

Pediu para que todos levantassem as mãos enquanto continuavam a cantar, repetindo a frase como um mantra. Se posicionou de frente para o animal. Fez um novo gesto com as mãos, formando um círculo, e o posicionou sobre o plexo solar.

Todo o público do estádio começou a se sentir cansado. Conforme a musica se encerrava, as pessoas abaixavam suas mãos, fechavam os olhos e todo o fervor e paixão cessara. A diva, ao contrário, entrava em estado de êxtase, quase em transe, trêmula, tamanho era o prazer que sentia ao absorver toda aquela quantidade de energia vital. Jamais vira um público tão devoto. Provavelmente, se soubessem a verdade, dariam sua energia de bom grado como sacrifício à deusa.

Lyzza Connor estava mais que satisfeita com o mais intenso e saboroso banquete que jamais tivera.

Concluiu que precisava fazer mais shows no Brasil.

***

Joana chamara as amigas para assistir em sua casa o novo DVD da Lyzza Connor. As meninas dançavam na frente da TV de plasma. Sabiam de cor todas as coreografias da diva. Repetiam com precisão todos os movimentos sensuais e gestos com as mãos, inclusive o triangulo posicionado na testa, que se tornara mania entre as adolescentes.

Mas Joana não entendeu por que, ao fazer aquele gesto, uma imagem azulada se sobrepôs à sua visão. Fechou os olhos e se assustou por continuar enxergando tudo, sob um manto azul e, principalmente, por ver uma aura avermelhada em suas amigas. Mas achou aquilo muito interessante e sorriu ao sentir um gosto metálico quando as outras caíram, semi desfalecidas, no sofá.

– Nossa – disse uma delas – eu adoro dançar Lyzza Connor, mas cansa, viu!


Esse conto estava perdido entre meus arquivos; eu nem me lembrava dele. Achei adequado revisá-lo para postar aqui em tempos de lançamento de duas antologias de temas bem semelhantes: PsyVamp, em ebook, e Vampiros de Alma, em audiobook.

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