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Essa foi a chamada para a apresentação da peça de teatro musical “Tommy”, a ópera rock do The Who, realizada no “Palcão” da UniRio. Dirigida por Rubens Lima Jr, o espetáculo teve suas músicas todas traduzidas para o português e foi apresentado durante algumas semanas.

Quando eu fiquei sabendo dessa apresentação, logo quis ver mas me preocupei com a qualidade musical. Podem me chamar de chato, mas estamos falando de um dos maiores e mais importantes álbuns de rock de todos os tempos. A musica TINHA que ser muito bem executada, as traduções tinham que ser muito fiéis e as vozes tinham que transmitir aquele sentimento que só quem conhece o original sabe qual é. Também me preocupei com o cenário. Como uma apresentação de pequeno orçamento faria as cenas psicodélicas como a da musica “Amazing Journey”? Como seria o torneio de Pinball? E o acampamento do Tommy?

Fui no Facebook e, como vi muitos elogios – principalmente à banda – decidi conferir.

A recomendação dos organizadores era chegar 1 hora antes. Bem, foi o que eu e minha amiga fizemos. Era um dos últimos dias de apresentação, e eu não poderia ir em nenhum dos dias seguintes. Cheguei em cima da hora, e adivinha? Havia acabado as senhas. O espetáculo estava mesmo lotando a casa. Fiquei na fila de espera. “Eles deixam algumas pessoas entrarem para sentar lá no fundo”, disseram. Esperamos, esperamos… algumas pessoas tentaram passar nossa frente… esperamos mais. Quando comecei a ouvir a ouvir o prelúdio e a introdução de “It’s a Boy“, algumas pessoas da fila de espera entraram. E quando faltavam umas 8 pessoas para chegar nossa vez, vem o anuncio:

“Acabaram as vagas, não cabe mais ninguem”.

Bem, eu sempre tenho esse tipo de sorte. É como o dia em que perdi o autógrafo do Neil Gaiman…

Ficamos lá conversando com o… ahn… o cara que ficou impedindo nossa passagem na entrada. Choramos nossas pitangas. Realmente só podíamos ir naquele dia. Eu me sentia como no episódio de Doug em que ele e Skitter quase perdem o show dos Beats. Mas tal como Doug, pudemos assistir à apresentação.

As tres fases da vida de Tommy.

Entramos já no meio de “What About the Boy?“, a cena em que o pequeno Tommy presencia o assassinato e sofre o trauma que lhe deixa cego, surdo e mudo (Caso você não conheça a história, leia esse artigo antes de prosseguir). Nessa cena, já se podia destacar a qualidade dos vocais, principalmente da intérprete de Mrs. Walker (Camila Maia), a mãe do Tommy.

Aqui, e só aqui, vou destacar: a banda era excelente!

O figurino estava bom, seguindo a moda dos anos 60/70. Eu imaginava a possibilidade de uma releitura para os dias atuais. Não sei se daria certo, mas não foi o que aconteceu. As roupas nos transporatam para a época sem muita dificuldade.

O cenário era minimalista, mas funcional. O jogo com os espelhos, interagindo as três fases da vida de Tommy, foi bem executado. No geral, havia apenas dois, no máximo três elementos em cada cena. Afinal, o destaque é para a música. Senti falta de algo mais elaborado no torneio de Pinball, bem como da figura do campeão interpretado pelo Elton John no filme. Algumas cenas, como a de Acid Queen, foram bem resolvidas somente com o jogo de luz.

E por falar em Acid Queen, vamos voltar às atuações/interpretações. Merece destaque a supracidada prostituta (Sabrina Vianna) e o cafetão (Guilherme Hinz). O primo Kevin (Leo Bahia) e o Tio Ernie (Vitor Martinez) também roubaram cena por mais de uma vez. A cena de “Welcome” foi excelente, assim como a de Sally Simpson, embora esta tenha sido muito diferente da versão que conheço. Na peça, Sally, após levar a chocante surra no show de Tommy, acaba se tornando companheira dele. No filme, ela se casa com um rock star (hm, isso não é nenhum spoiler significativo).

As traduções foram boas, mas decepcionou em algumas partes. Talvez eu seja mesmo muito chato, mas traduções como “I’m a Sensation” para “Eu sou um mito” e “I’m wating for you to follow me” para “eu quero você me seguindo”, no contexto, deu ao Tommy um ar talvez arrogante demais. Não sei se foi intencional, mas minha impressão do Tommy na obra original é de um garoto que realmente acreditava ter atingido a iluminação e iria trazê-la ao mundo. Ao menos para mim essas duas músicas (Sensation e I’m Free) foram as traduções menos fiéis e condizentes.

Senti muita falta de algumas cenas, como a de “Eyesight to Blind“. Sério, qual fã não queria ver a cena do padre que promete cura e entorpece os fiéis com hóstia química e água benta alcoolica? E sei que só aparece no filme e não está no original, mas a cena do diálogo de Tommy, após a cura, com sua mãe, para mim é parte essencial da mensagem.

Ah, a mensagem. Não poderia ficar sem falar dela, né? Embora em meu outro artigo, sobre o filme, eu já tenha mencionado bastante sobre isso, não posso deixar de comentar sobre o principal, ainda mais se tratando de Tommy. Mesmo com várias mudanças, o recado se manteve, e ainda ganhando novas nuances. Na peça, vemos um Tommy após sua cura muito mais cego pela fama e por sua convicção de ser um messias, do que no filme. Beira a arrogância e hipocrisia em certos momentos.

Assim como no filme, fica evidente que, mesmo Tommy estando curado, seus parentes continuam abusando dele. Mas dessa vez, é arrancando dinheiro de seus fãs, enriquecendo às suas custas, sem que o “messias” percebesse. Isso nos leva a perguntar: Tommy estava mais cego antes ou depois de ser curado?

Mas é em Sally Simpson, que conta a historia de uma garota que foi atrás do seu ídolo, Tommy, e pagou caro por isso, e depois, na penultima cena, quando Tommy explica sua ideologia ao povo, que temos a epítome da mensagem. No climax, o protagonista clama para que a multidão que o idolatra e busca nele a iluminação, para que não queiram se tornar como ele. Pelo contrário, ele é quem gostaria de ser como eles.

E aqui entra a maior e ao mesmo tempo menor diferença com o filme. Ao invés do final trágico, em que Tommy segue sozinho para um tipo de exílio, na peça todos lhe dão as costas, deixando o ex-messias, que retorna ao seu estado anterior, sem reagir a estímulos externos. Ao invés da esperança do filme, temos um final aparentemente pessimista.

É uma pena que quem não viu o espetáculo, não verá mais. Eles não pretender fazer novamente.

Ficha técnica:

Versão Brasileira: Alexandre Amorim. direção geral: Rubens Lima jr. Assistente de direção: Claudio Althiery. Direção musical: Guilherme Borges. Preparação Vocal: Maíra Garrido. Arranjos: Guilherme Borges e banda. Coreografia: Victor Maia.

Ps.: Metade do seu texto é meu

Agora, um detalhe bem curioso que descobri. Eu fiquei até feliz, mas… que tenso! Ao reler o flyer de divulgação para pegar os nomes dos atores para postar aqui, eis que reconheço, no texto de apresentação redigido pelo diretor da peça, o MEU texto sobre o filme Tommy (esse que ja indiquei no início desse post). É bacana saber que meu texto se tornou uma referência desse nível, mas, senhor Rubens Lima, dar crédito e citar fontes faz bem à saúde, mesmo meus artigos sendo copyleft :)

Meu post: https://abismoinfinito.wordpress.com/2010/02/04/tommy-a-opera-rock-do-the-who/