Há um tempo atrás assinei um contrato com uma editora de quadrinhos para publicar um trabalho meu. Tudo parecia muito bacana, muito interessante e promissor… até o momento de cumprirem a principal parte do processo. Pagar meus direitos pelas vendas das edições, claro.

Na verdade, a editora não foi a responsável pela publicação. Eu banquei todos os custos da edição. O serviço que eles prestariam era de distribuição. Na época, eu não tinha nenhuma condição de distribuir nada, sequer de colocar um número de ISSN na revista, coisa que as livrarias exigem para colocar qualquer publicação em série nas suas prateleiras (a menos que se trate de fanzine em consignação). Então, como era uma editora “disposta a investir no mercado de HQs nacionais”, eles usariam o cadastro deles na agência responsável pelo cadastro de ISSN, disponibilizariam a revista em sua loja online, comercializariam em livrarias locais (do estado deles) e nos eventos em que participassem. Era mais uma parceria entre dois colegas de trabalho que queriam impulsionar o mercado.

Também fazia parte do acordo que eles intermediassem o meu contato com a gráfica. Ou seja, eu paguei, mas só eles tinham acesso a empresa responsável pela impressão.

Segundo o contrato, eles deveriam me enviar um relatório de vendas em determinado período. Também deveriam ter enviado a nota fiscal da gráfica. Também segundo o contrato ficariam com 40% da tiragem para vender e me repassar 90% do bruto.

Agora tentem adivinhar: eu recebi algum desses serviços?

Exceto o intermédio com a gráfica, não.

Não recebi nota fiscal, não recebi relatório de vendas, meu produto não está à venda na loja virtual (que nem está mais online), não vi sequer uma foto dos eventos (embora tenham me relatado uma meia dúzia de palavras a respeito), não recebi um centavo furado das vendas (e vendeu?).

Ainda segundo o contrato, ao fim da validade do mesmo, a editora deveria me devolver as edições restantes. Até agora nem sinal.

Bem, não preciso dizer mais nada, né?

Tentei contato várias vezes. Depois esqueci, depois não tive tempo, depois tentei de novo e deixei quieto. Sou muito bonzinho nessas coisas, acredito no bem da humanidade e que as pessoas são de coração puro que nem os Ursinhos Carinhosos (e isso ainda vai me matar), mas paciência tem limite. Recentemente li uma notícia sobre uma editora que nunca existiu e enganou e prejudicou o sonho de muitos jovens autores. O texto me fez pensar que o mesmo que aconteceu comigo pode estar acontecendo com as centenas de quadrinhistas, fanzineiros e pessoas que sonham em fazer HQs que passam por esse blog todos os dias. São pessoas que desconhecem esse lado obscuro do mundo editorial, lado que eu já conhecia 10 anos atrás, nos idos tempos da Sequential Artists. Isso ainda existe e continua atropelando sonhadores inocentes e ingênuos.

E eu decidi que, se depender de mim, isso não vai mais acontecer. Ou pelo menos as pessoas que aqui passam ficarão avisadas de algumas coisinhas que acontecem desde que meu avó tinha dentes.

Durante os anos, acumulei alguma experiência e, mesmo acreditando na bondade do ser humano, lá no fundo, sei que ela às vezes está muito bem escondida em meio aos entulhos do egoísmo, malandragem, do desejo de se dar bem independente dos meios.

Em breve atualizarei a situação do meu caso, caso eu receba retorno da editora.

Também postarei algumas dicas usando o que aprendi nessa experiência para que você seja vacinado contra a pilantragem editorial.

Depois o mercado não avança e ainda não se sabe o porquê. Tá, senta lá.

Quanto a esse meu caso em específico, nao sei dizer se foi pilantragem mesmo ou um caso de boas intenções que morreram na praia deixando a empresa atolada de dívidas. Mas a falta de comunicação levanta suspeitas, né? Vamos aguardar para ver qual é.