Minhas impressões particulares sobre o evento

Do dia 27 de setembro ao dia 1 de outubro aconteceu a IV Semana de Quadrinhos da UFRJ, evento anual que reúne debates, oficinas, feiras e promove uma discussão acadêmica e altamente relevante aos autores experientes e iniciantes. E o melhor de tudo, é gratuíto.

Eu, como editor da revista Quadrinize, fui convidado para ministrar a oficina de roteiro, e como não sou bobo nem nada, estive presente durante quase todo o evento.

O evento foi realizado na UFRJ e na unidade Sesc Madureira, além de transmitido ao vivo para a internet na segunda e na sexta-feira, pela empresa X4IDS.

27/09 – Abertura, debate sobre o mercado de trabalho.

A abertura do evento aconteceu na EBA (Escola de Belas Artes da UFRJ) com um debate sobre o mercado de trabalho com ex-alunos da EBA. Os convidados foram André Dahmer (Os Malvados), Clara Gomes (Bichinhos de Jardim) e Bruno Drummond (Gente Fina).

O que deveria ser um debate acabou se tornando um bate-papo descontraído, exceto por raros momentos.

Os três quadrinhistas comentaram sobre sua formação profissional, suas influências, sua visão sobre o mercado e sobre a própria carreira.

Um dos pontos altos da mesa (e de todo o evento) foram algumas falas polêmicas do André Dahmer sobre direitos autorais. Segundo ele, “direito do autor é coisa do século passado, não vai perdurar”. Bruno foi parcialmente favorável, dizendo que não se incomoda de reproduzirem seu trabalho, desde não comprometa a qualidade “Pode reproduzir, mas faz direito!”

Dahmer acredita na Internet como o futuro para os artistas e acredita que a rede pode se tornar um novo mercado colaborativo. Nisso, todos foram favoráveis.

André diz que não aprendeu nada com a faculdade – nenhuma das duas – e que ninguém deve aceitar a chantagem que é feita em nome da “sobrevivencia”: a necessidade de entrar na faculdade, conseguir um estágio, sair da faculdade, arrumar emprego… ou não sobreviverá. Segundo ele, qualquer um pode largar a faculdade, quando quiser. Ninguém vai morrer de fome. Dahmer também atacou o mercado de exposição de arte, que seria usado para lavagem de dinheiro.

Dahmer também disse que para ser feliz no trabalho é necessário: amor, coragem e talento.

Bruno mencionou algo que costumo enfatizar muito quando trato de criação de personagens: observar as pessoas ao redor. Ele tem o hábito de ficar desenhando pessoas que vê na rua. Já Clara Gomes diz usar a memória afetiva para criar identificação com o leitor.

Nota: 9,0

Assista o vídeo na íntegra, com André Daher, Clara Gomes e Bruno Drummond.

28/09 – Oficina de Roteiro / Debate sobre web comics

Às 15h, no SESC Madureira, rolou a minha oficina de roteiro, com um atraso por causa do transito (a galera demorou a chegar). Apesar de o SESC ter colocado a oficina no mesmo horário de um baile de terceira idade que rolou no pátio principal (!!!), consegui falar audívelmente sem perder a voz.

Conversei com um público variado de 15 pessoas, de gostos e experiencias diferentes, o que é muito bom. Falei sobre o que é e o que não é um roteiro, sobre criação, sobre a Ideia que deve guiar a história do início ao fim, uma pincelada sobre ambientação, personagens, conflito, enredo… coisas sem as quais não é possível falar de roteiro.

Para cada elemento da narrativa, usei uma história improvisada como exemplo para que entendessem o conceito e pedi para que cada um pensasse em uma ideia para história.

Depois expliquei o processo de formatação de uma apresentação de um projeto. Falei sobre plot, sinopse “editorial”, argumento, ficha de personagens e o roteiro em si, explicando a diferença entre o Marvel Way e o Full Script.

Após a explicação, cada um se debruçou sobre as mesas para escrever suas histórias. Alguns fizeram em duplas. Pedi que seguissem o processo criativo que apresentei por uma questão de organização de ideias e, aparentemente, a experiencia foi satisfatória a todos.

Eu trouxe para casa as histórias da galera e assim que possível retornarei por e-mail com um parecer.

Confira um pequeno vídeo com algumas imagens da oficina do roteiro.

Às 19h, no auditório do SESC, começou o debate sobre web comics, com Carlos Ruas (Um Sábado Qualquer), Ana Recalde (Patre Primordium) e Alzira Valéria (Livraria da Travessa). Mais uma vez, o que seria um debate se tornou apenas um bate-papo. Esse se tornou talvez o único ponto fraco em todo o evento. Em especial, essa mesa tinha convidados que poderiam ser conduzidos a questões muito mais interessantes. Afinal, se tratava de um quadrinhista que vive de web comics, uma quadrinhista que publica em papel e uma representante de livraria. Assuntos como o futuro das HQs, vantagens do papel e da web, preferencia do leitor e economia mercadológica poderiam ser melhor explorados. Também poderiam ter abordado a questão dos novos formatos e novas tecnologias para web.

No entanto, houveram bons momentos, como a questão dos direitos autorais.

O mediador começou dizendo que vivemos em uma época de transformação; assim como Güttemberg trouxe mudança com a imprensa, a internet veio revolucionar o mercado. Todos foram a favor de que a internet é o melhor meio de ter visibilidade rápida e isso já está se tornando um ponto passivo. Ana diz inclusive que se você quer viver APENAS de quadrinhos impressos, não vai conseguir viver. Alzira mencionou que na mídia impressa através de editoras, o autor normalmente recebe apenas 3% das vendas, e apontou o alternativo como melhor opção.

Outro assunto interessante que também gosto de discutir é o papel do editor. Ana diz que o artista costuma ficar alienado e o editor tem a função de não permitir que essa alienação chegue ao leitor. É ele quem tem a visão de mercado e um pé na produção. Alzira vai mais longe e diz que o editor tem que ter visão não só do mercado, mas da arte como um todo. “Ele é um defensor da linguagem”. Ruas disse que o editor consagra seu trabalho.

Depois disso, a discussão tomou rumos diferentes da proposta inicial e se perdeu um pouco do foco.

Nota: 8,0 (não estou considerando minha própria oficina para dar a nota, claro)

Confira algumas cenas do debate com Carlos Ruas, Ana Recalde e Alzira Valéria.

29/09 – Oficina de Fanzine / Debate sobre Quadrinhos na Educação

No SESC Madureira, Renato Lima (revista Mosh), experiente quadrinhista e editor de diversos quadrinhos independentes, levou uma penca de revistas e nos mostrou durante quase 3 horas os fanzines mais antigos e a evolução até os dias atuais. Apesar do barulho – dessa vez o SESC nos colocou ao lado de uma britadeira!!! – e de ser um pouco cansativo devido ao extenso conteúdo, mais em formato de palestra, a oficina de fanzine foi uma aula indispensável para qualquer quadrinhista sobre a histórias das HQs independentes do nosso país. E considerando que as nossas HQs sempre foram mais focadas no mercado underground, é uma aula sobre a história das próprias HQs nacionais.

À noite, rolou o debate sobre Quadrinhos na educação, com Carlos Hollanda e André Brown.

Um dos pontos mais interessantes foi a forma de se usar quadrinhos na escola. Não se deve usar apenas trechos de hq com objetivo unicamente pedagogico, nem meramente como um motivador para o estudo. A HQ deve ser considerada e lida na intrega e de forma livre. Por exemplo, em uma aula de física poderia-se discutir os poderes do Dr. Manhattan, de Watchman.

Também foi muito infatizado a questão da leitura integral dos quadrinhos. Segundo eles, o brasileiro normalmente não sabe ler quadrinhos. Lêem os balões, mas não sabem ler a arte sequencial, por um problema na educação nacional. Carlos Holanda gastou um bom tempo mostrando que a cultura iconoclasta diminuiu a importância da imagem em nossa sociedade. Explicou como imagens suscitam significados. A imagem passa uma informação estética e mexem até o nível fisiológico. Gera múltiplas informações dependendo da vontade do desenhista. “A imagem é fundamental para o aspecto cognitivo” . Completou dizendo que é importante para um professor de matemática ensinar seus conceitos visualmente.

Quando questionados sobre a formação dos autores de HQs, Carlos mencionou que Alan Moore só estudou até o primário. Enfatizou que formação formal e/ou academica não é suficiente. O importante são os estudos e pesquisas pessoais do autor. André Brown disse que só buscou a academia quando já era velho. Disse que é importante, mas só para aumentar contatos. Não é uma obrigação, apesar de estarmos em uma sociedade exclusiva em relação à formação formal.

Nota: 9,0

30/09 – Oficina de Humor Gráfico / Debate sobre o Mercado de Trabalho

Não fui ç_ç

Precisava trabalhar na Quadrinize.

01/10 – Debate sobre Angelo Agostini

Esse foi o encerramento do evento, e trouxeram um tema pouco valorizado por grande parte dos quadrinistas e candidatos a quadrinistas da geração atual: o passado.

Angelo Agostini é um dos mais importantes nomes da HQ nacional e mundial. E Carlos Patati, Athos Cardoso, Otávio Aragão, Lucio Muruce e Pedro de Luna foram à mesa para elucidar esse assunto. Há 100 anos, morreu Angelo Agostini, mas suas contribuições são essenciais aos dias de hoje. A discussão girou em torno de quem foi Angelo Agostini, quais foram suas contribuições e quem no Brasil segue seu legado, ou qual a situação dos quadrinhistas comparado à epoca de Agostini.

O pesquisador Athos começou esclarecendo que Angelo Agostini foi o primeiro desenhista que lançou a primeira revista inteiramente em quadrinhos e que era através de sua enorme revista que muita gente do império conheceu o Brasil do interior. Ele também criou a primeira heroína do mundo, que atuava em nível “Tarantino“, matando com um machado.

Luciano Magno ressaltou que Agostini não era apenas um desenhista alienado. Ele tinha postura abolicionista, republicana e anti-religiosa, e o definiu como um homem que libertou os escravos através dos quadrinhos. Completando, Pedro de Luna, sempre focado nos dias atuais, disse que há muitos quadrinhos filosoficos, existenciais, mas não há um politicamente agressivo como o de Agostini.

Sempre apaixonado pelo assunto, Athos disse que Agostini é o patrono dos direitos humanos no brasil e que não há outra pessoa que possa ocupar este lugar. “A brasilidade no trabalho do Agostini é impressionante. Se há coisas européias no trabalho dele é por causa da moda e geralmente tratado em uma crítica.”

Levando para o mercado atual, Patati afirmou que não existe quadrinhos brasileiros para brasileiros, e apontou como principal causa a falta de editores atuando no mercado. Athos completou que editores são responsáveis pela imagem do Brasil, mas eles só querem dinheiro. Luna sugeriu quadrinhos regionais, devido a grande diversidade cultural do país, dizendo que seria uma solução para evitar a colonização paulista que ocorre. Patati respondeu que o problema da simplificação e unificação do conceito de o que é Brasil veio com a televisão.

Depois de alguns momentos de discussão sobre o que seria o herói brasileiro, ora mencionando Ayrton Senna, ora rejeitando o conceito do herói romantico, Athos disse que não dava pra discutir heróis ali porque estavam entre intelectuais. Quadrinhos é cultura de massa, e precisa ser mais binário. Coisa com a qual eu concordo plenamente. Depois ele apontou que os brasileiros brigam entre si, o que realmente atrapalha.

Luna apontou a importancia das gibitecas e sindicatos, que praticamente não existe no Brasil, além da necessidade de criar histórias pensando em indústria, lincenciamento. É daí que se ganha 70% do dinheiro lá fora.

Quando o assunto foi a comparação entre os dias de Agostini e os nossos, a conclusão pareceu óbvia: não há quadrinhista que tenha o empenho, produção e ativismo político e social como Angelo Agostini, que foi apontado como o autentico héroi nacional.

No final da conversa, Athos foi homenageado pela Semana de Quadrinhos da UFRJ por sua imensa e importante pesquisa sobre Angelo Agostini.

Com isso, encerrou-se o evento.

Nota: 8,0

Assista a gravação do debate.

Considerações finais:

Posso dizer que aprendi MUITO com todos os participantes dos debates e oficinas. Eu destaco as palavras de André Dahmer como fundamentais para qualquer um que queira se aventurar no mundo dos quadrinhos nos dias de hoje. Ressalto a importância da “aula” de história das HQs nacionais de Renato Lima e reitero as afirmações de Patati sobre o mercado nacional. Estes, para mim, foram os pontos altos do evento. Os pontos baixos foi o descaso da unidade Sesc Madureira, a fraca divulgação e as oportunidades que os mediadores dos debates perderam de transformar a conversa em um… verdadeiro debate. Os horários do evento também não foram muito bons, o que diminuiu a presença do público. Também faltou uma exposição de trabalhos dos quadrinistas – apenas eu compareci com a Quadrinize. Em geral, é um evento que vale a pena, embora ainda haja muito o que melhorar. Não é evento para se divertir, fazer cosplays e gastar o salário todo em stands. São debates acadêmicos para decidir os rumos dos quadrinhos em diferentes áreas. As discussões e oficinas tiveram temas fundamentais, os convidados em geral foram bem pertinentes.

Nota geral para o evento: 8,0

(Em breve atualizo isso aqui com fotos. Agora não to com paciência nem tempo pra isso)