Atendendo ao pedido de um leitor, tratarei de um assunto que é até um desafio para mim, pois nunca escrevi a respeito. Veremos como começar uma história prendendo o leitor. Veja este outro artigo se quiser saber sobre como começar o enredo de uma história.

Juntarei técnicas aprendidas com estudo, observação e algumas teorias minhas nessa nova série de posts. Então fiquem à vontade para discordar e dizer que não sou o dono da verdade, porque eu não sou mesmo xD

A lei da narrativa de quadrinhos é a mesma do livro e do cinema: expectativa.

Expectativa é quando o leitor se pergunta “e agora?” É o que o move a virar a página e provavelmente o que o moveu a ler esse texto ao se deparar com o título. Não se iluda. Não é sua história maravilhosamente desenvolvida, seu vocabulário invejável, sua trama intrincada, as batalhas épicas ou personagens complexos que amarrarão o leitor no princípio da jornada – tudo isso é de extrema importancia, mas não valerá muita coisa se você não souber trabalha-los com a narrativa ideal. E a narrativa ideal é aquela que você coloca os quadros certos, no lugar certo, com a cena certa e diálogo certo no enquadramento certo para gerar a bendita expectativa.

Pense nisso – ninguém se envolve com a ambientação e nem se apaixona pelos personagens nos primeiros instantes. Então, tudo o que você tem para usar é… expectativa.

Lembre-se que estamos falando de inícios de histórias. Não estou dizendo em absoluto que expectativa é tudo – embora ela esteja presente do início ao fim. Se você gerar uma grande expectativa e não corresponde-la, você perde toda a credibilidade.

A minha teoria mal-testada é que temos tempo cronometrado para prender o leitor. Temos inúmeras ferramentas úteis que nos ajudam na tarefa, como o logotipo, a capa, o prefácio, a contracapa e a orelha (em HQs, pule o prefácio e a orelha, ninguém quer ler). Em um curso de leitura dinâmica, você aprende como ler essas coisas antes do livro em si o ajuda a ter uma pré-compreensão da obra, poupando assim o tempo de assimilar durante a leitura. Use esses elementos o máximo que puder.

Mas o que conta mesmo é o começo da história. É o apito do juíz anunciando o início da partida. E na minha teoria, em um quadrinho de 24 páginas, você tem UMA página para chamar a atenção do leitor e CINCO para ganhá-lo.

Apenas para registrar, em um livro, você tem um parágrafo para chamar a atenção e a primeira cena para ganhar o leitor. Só que muitos ótimos autores com péssimos primeiros parágrafos contam que ninguém irá desistir de ler tão cedo. Mas não arrisque se estiver escrevendo para internet.

Para mangás de mais de 24 páginas por capitulo ainda não encontrei um padrão, pois o ritmo da narrativa varia muito. Graphics Novels também funcionam em outro ritmo.

Também não ouso dizer que caso não consiga realizar o feito das cinco páginas ou do primeiro parágrafo, tudo está perdido. Mas as chances de você, um desconhecido, ser lido na Internet sem essa tática se reduzem drásticamente.

Já quando o leitor compra a revista ou livro, ele acaba se forçando a ler mesmo que seja uma merda. Afinal, ele pagou pela birosca. Mas os mais espertos entendem onde quero chegar. Você não quer ser lido por caridade ou por obrigação, e sim porque você GANHA o leitor.

E também é claro que, nas páginas seguintes, você precisará manter a fidelidade do leitor, surpreendendo-o sempre. Mas este é o ponto crítico. Cinco páginas.

Vou mostrar alguns exemplos disso.

Kick Ass

Leia a primeira página.

Kick Ass página 1

O texto é claro, direto ao ponto onde a história tenta levar o leitor. Jogo limpo, sem enrolações: um mundo normal onde alguém normal teve a idéia escrota de imitar heróis de quadrinhos. E se deu muito mal. É preciso deixar claro para o leitor sobre o que ele está lendo. Segredos e mistérios são bons, mas não aqui. O tema da história deve ser nítido.

Aqui Mark Millar, o autor da série, tem toda a atenção do leitor, tanto pelo tema, pelo texto maravilhosamente escrito, pela narrativa. As duas primeiras frases do narrador são muitíssimo bem colocadas e define a série. “Como ninguém pensou nisso antes?”.

“Todos os dias da vida são tão excitantes? As escolas e escritórios são tão estimulantes que eu sou o unico que já fantasiou sobre isso?”

Aqui é uma pergunta retórica. O leitor pensará “Não, eu cresci fantasiando com isso, eu sou como esse cara”. Quase ganhou o leitor; ainda não ganhou porque está sendo criada a expectativa.

Depois, o narrador concorda com o leitor “Todos nós já sonhamos com isso”.

Agora leia as demais.

Segunda página, um voô complicado. Tensão, expectativa. Terceira página, final trágico. Mas “esse não era eu”, diz o narrador. Ufa, então quem é ele? Tensão, alívio e mais expectativa no mesmo quadro.

“Eu sou o cara com os eletrodos presos nos testículos”. Ok, agora a cena futura nos deixa ainda mais curiosos e cheio de… expectativa.

E, finalmente, na quinta página Mark Millar ganhou o leitor. Como? Mostrando que nosso intrépido, sincero e nada esperto herói é um garoto como o leitor. Em uma das melhores falas das hqs atuais, ele se define:

“Eu não diria que era o atleta da classe, mas também não diria que era o nerd da sala. Eu não era o palhaço da classe ou o gênio da classe, ou nada da classe, na realidade. Como a maioria das pessoas da minha idade, eu apenas existia”.

Aniquilando completamente o clichê de que o herói é o nerd ou o cara popular ou algum outro esteriótipo escolar, Mark Millar nos trás a uma realidade que conhecemos: nós somos apenas um bando de garotos que simplesmente existe. Isso termina de definir totalmente o personagem. As próximas páginas discorre um pouco mais sobre a mesma afirmação de que ele não é ninguém excepcional com condições excepcionais para se tornar um herói.

Peque sua coleção de HQs e folheie as cinco primeiras páginas. A primeira será mais padronizada, sempre tentando sugar o leitor em um vórtice que o transportará a outro mundo. A quinta página poderá surpreender, mas isso pode ocorrer na quarta, sexta, décima página. Repito: Não é uma regra. Muitos autores se apegam ao método dos três atos, mas isso não é assunto para este blog por enquanto.

E, já que mencionei que em um livro o autor tem um parágrafo para ganhar o leitor, deixo alguns primeiros parágrafos de best sellers.

“Isso aconteceu em 1932, quando a penitenciária estadual ainda ficava em Cold Mountain. E, é claro, a cadeira elétrica também estava lá” – The Green Mile (Stephen King)

“O que aqui se conta aconteceu há muitos anos, quando vovô ainda era menino. É uma história da maior importância, pois explica como começaram as idas e vindas entre o nosso mundo e a terra de Nárnia” – O Sobrinho do Mago (C. S. Lewis)

“Todas as crianças crescem – menos uma. E bem cedo elas ficam sabendo que vão crescer. O jeito de Wendy ficar sabendo foi assim. Um dia, quando ela tinha dois anos, estava brincando no jardim, pegou mais uma flor, e correu com ela para junto da mãe. Imagino que ela devia estar uma gracinha, porque a senhora Darling pos a mão no coração e exclamou: Ah! Por que é que você não pode ficar assim para sempre?” – Peter Pan (James Barrie)

Alguns escritores se garantem na primeira cena por inteiro, mas você conhece o potencial narrativo pelo primeiro parágrafo.

Lembrem-se de que esta é uma dica. A primeira de muitas sobre o assunto. Lembrem-se que escrever, apesar de ser uma ciência, é uma arte e depende do seu feeling. Não estou propondo fórmulas, até porque grandes obras primas não se enquadram nessa teoria. O que sugiro é que essa é uma ótima forma de se trabalhar um texto quando não se sente muito seguro em técnicas para ganhar seu leitor. Essa técnica impõe limites. E como diria Robert McKee, limities te forçam a extraploar sua criatividade.

Se você não convencer seu leitor a ler logo no início, nada garante que ele não vai fechar a revista ou livro para ir twittar sobre… sei lá, o filme do Homem de Ferro.

Nos próximos posts falarei mais sobre diferentes maneiras de começar uma história. Tudo bem teórico, experimental, epifanico. Nenhuma garantia de sucesso. Mas é melhor do que a certeza do fracasso xD