Ambientação

Continuamos nossa saga abordando a ambientação, um dos principais elementos de qualquer narrativa. Esta é uma série de artigos visando dar a devida importência ao assunto, sendo que muitos ainda dedicam pouco tempo a ele. Talvez você queira imprimir essa série, guardar nos favoritos e compartilhar com pessoas que tem o mesmo interesse que você em escrever e contar histórias. Caso ainda não tenha lido o artigo anterior, não deixe de conferir antes de prosseguir a leitura.

Os artigos já publicados são:

1 – O que é Ambientação?

2 – A Pesquisa na Ambientação – Parte 1

3 – 11 Dicas de Ambientação Para Roteiristas

Hoje vamos falar porquê tanta gente comete sempre os mesmos erros. Tudo o que precisamos é entender como funciona nossa mente criativa e aquilo que chamamos de “mente intuitiva“. Falemos também um pouco sobre a ambientação dentro de gêneros específicos, usando a fantasia como exemplo.

“Mente intuitiva” é quando você pergunta ao autor suas referências, inspirações, seu processo criativo, enfim, de onde ele tirou as idéias e ele responde “eu não sei, foi intuitivo”. Se ele não estiver mentindo, isso normalmente significa o seguinte: ele copiou de algum lugar sem perceber.

Explico. Quando assistimos muitos filmes, séries, animes, novelas – o que for – do mesmo gênero, acabamos por assimilar certas convenções.

Por exemplo, quando vemos muitos filmes/desenhos de fantasia, acabamos por gravar em nosso inconsciente o lugar-comum dessas histórias: os elfos com arco-e-flecha, os honrados cavaleiros de capa e espada, os magos com chapéus pontudos, os artefatos mágicos, a floresta amaldiçoada, a caverna do dragão, o pântano da solidão, a profecia, o escolhido… acabamos por assimilar e nos acostumar com esses elementos, mas não o compreendemos. Então, o pretenso escritor parte para a jornada de ambientar sua obra e usa todos esses elementos; afinal, para ele, para uma história ser de fantasia é necessário colocar aquilo que ele viu em outras histórias de fantasia. E isso será o suficiente.

É exatamente esse processo o maior culpado pelos clichês mundo afora.

Para criar uma história de fantasia – ou qualquer outro gênero – precisamos ir até o mais próximo da origem dos seus elementos para assim captarmos o significado deles. Não pensem que é aleatório ou que os autores escrevem sobre essas coisas porque é legal. Tudo é simbólico. Tudo tem um significado. E apenas clonar os elementos por si só, apenas pela estética, é arranhar a superfície do gênero. Em outros termos, é ser superficial e nada criativo.

Mas quando vamos até a fonte, a mesma que inspirou nossos autores favoritos, e inspirou os autores que inspiraram nossos autores favoritos e compreendemos esses elementos, nós decodificamos o gênero. Quando decodificamos o gênero, temos a possibilidade e liberdade necessária para fazermos o que quisermos com ele. O limite é nossa própria habilidade. É assim que surgem os que reinventam gêneros.

Um exemplo de uma história que reinventou a fantasia? Star Wars. Aquilo é fantasia disfarçada de ficção científica, todos os elementos da fantasia estão lá. O escolhido, o paladino da justiça, o sábio profeta/mestre, os poderes místicos, os mestres da espada, criaturas fantásticas, a princesa, o plebeu, o mago, o rei tirano, o “castelo-forte”.  Mas isso apenas foi possível porque George Lucas, aprendiz que foi de Joseph Campbell, foi capaz de capturar a essência dos elementos da fantasia e transportá-los para um cenário futurista. Além do mais, Star Wars carrega todo o significado simbólico que poderia em cada elemento, cada tijolo da ambientação. Apenas os que tem total consciência do que estão fazendo, os que conheçem bem a linguagem desde a fonte, são capazes de fazer isto.

Ir até a fonte de algum gênero é complicado, leva tempo e exige muita pesquisa. Mas se você for apaixonado pelo tema valerá a pena. Além do mais, o que você prefere? Escrever uma história cheia de clichês que apenas veste uma roupa superficial e aparente do gênero que você escolheu ou capturar a essência dos lugares-comuns, reinventar e contar uma história recheada de significado e novidade?