Finalizando essa trilogia sobre críticas, vou colocar aqui os argumentos mais usados pelos autores para se defender de “ataques”. Se ainda não leu os dois primeiros textos sobre o assunto, leia a Campanha Nacional Contra a Bajulação ao Autor e Críticas – Um atalho Para o Aperfeiçoamento antes de prosseguir.

Quando recebe alguma crítica, o autor que tem o orgulho inchado o bastante para se ferir com facilicade começa disparar uma série de argumentos e frases clichês na tentativa de derrubar o “atacante” e sair por cima como maiorial, como se fosse uma disputa verborragica. As frases mais usadas são:

“Faz melhor” – Essa frase é calcada em cima do sofisma de que, para criticar, você precisa saber fazer melhor do que o alvo da critica. Será que isso é um fundamento razoável? Vejamos por uma outra perspectiva. Você liga a TV e está passando Big Brother, ou Faustão e o Inspetor Malandro. Se você é uma pessoa razoável, em dez minutos irá levantar uma série de motivos para dizer que está assistindo a redefinição televisiva da palavra “merda”. Você sabe que aquilo é ruim, sabe PORQUE é ruim e, o mais mágico disso tudo, você NÃO SABE fazer melhor! Então por que a pessoa que critica seu trabalho tem que saber? Crítica se trata de teoria. Saber a teoria e saber fazer são coisas diferentes. Essa não passa de uma desculpa para tentar fazer o outro calar a boca. O “problema” é que se o outro realmente souber fazer melhor, nada mais pode ser feito e o autor terá uma dura lição de humildade. Outro problema grave de partir desse princípio é que assim o autor está SUBESTIMANDO o leitor, dizendo que leitores não entendem do assunto e não devem opinar. Saiba que o leitor – o leitor sensato – é o seu maior crítico.

“Você está é com inveja” – Às vezes essa me faz rir. Você olha o zine todo torto e mal escrito e tem que ouvir que está com inveja. Ainda não entendi o que leva as pessoas a pensarem isso. Então pula para a próxima.

“Meu zine é como um filho pra mim” – Ok, pára tudo. Mas HEIM? Que coisa sem pé nem cabeça! E olha que essa frase é no sentido carinhoso. Não é no sentido de que o autor teve “dores de parto” para criar e produzir sua obra, mas de que ele tem um carinho todo especial e meigo para com seus personagens e sua história a ponto de não PERMITIR que ninguém fale mal deles assim como pais não admitem que falem mal de seus filhos. Isso faz pensar em muitas coisas, e a primeira delas é que quem diz isso nunca teve um filho. Fato. Eu também nunca tive, mas não é preciso ter para chegar a essa brilhante conclusão – assim como não é preciso ser um desenhista para identificar aqueles erros de anatomia. E a segunda é que o autor não sabe como encarar seu próprio trabalho com o mínimo senso de profissionalismo. Eu diria que um autor profissional trata seus trabalhos mais como um em uma academia do que como filhos. Ele é exigente, rigoroso, rígido, perfeiccionista e nada nunca está bom o suficiente. Corta, remenda, corrige, corta ainda mais até ter uma estética minimamente apresentável. NUNCA são filhos que tem que ficar bajulando. Esses trabalhos nunca terão a revisão que precisam porque são trabalhos mimados.

“Faça critica construtiva” – Essa também é comum. É baseada no falso entendimento de que uma crítica que diz “está muito ruim, está uma merda” é destrutiva e não pode ser feita. Destrói o que, eu pergunto? Destrói o trabalho? Destrói a cidade, o mundo? Não, destrói apenas o ego do autor. E na maioria dos casos, isso é necessário. Concordo que críticas assim são POBRES e pouco úteis, mas se o autor está pensando que seu trabalho é uma maravilha quando não é, então críticas assim são bem-vindas para abrir seus olhos. As vezes, o orgulho é tão grande, que críticas mansas não o fazem ver o quanto a coisa está ruim. É preciso um verdadeiro tratamento de choque. São casos raros, mas existem.

“Mostre o que é o certo fazer, então!” – Vem depois do “faça uma crítica construtiva”. O autor diz isso, mas normalmente não é porque quer aprender, mas na esperança de que o crítico não saiba responder e, assim, possa sair por cima na “discussão”. Esse tipo de autor pensa que é uma disputa. Mas tenho boas notícias: você não precisa saber o que é certo fazer para saber o que é errado. Ou seja, você não precisa saber como criar uma motivação para um personagem para detectar um protagonista apático e estático.

E a pérola do dia: “Você só quer aparecer” – Sim, apesar do esforço que alguns em passar a maior parte do dia lendo zines e escrevendo textos para ajudar os autores, ainda disparam esse chute pra fora do estádio. Precisa de mais comentários?

Com tudo isso, eu só quero dizer aos fanzineiros, ilustradores, roteiristas e autores em geral que críticas não são um ataque terrorista contra a sua pessoa. Críticos não são contra o quadrinho nacional. E ainda que você ache essa contribuição muito parca e que deveríamos estar produzindo ao invés de criticar, isso não exime você de ponderar o que lhe foi dito na crítica, assim como nenhuma das desculpas acima exclui o fato de que você precisa sempre ouvir o que lhe é dito. Ninguém sabe o que o outro faz e produz por trás de monitores e perfis de orkut.

Espero que com esses três posts você tenha aprendido um pouco sobre como encarar uma crítica ao seu trabalho e a usar isso a seu favor. Qualquer comentário sobre o assunto, pode fazer nos “comentários” deste post que eu responderei com todo o prazer. Ou me adiciona.

E por favor, não soltem fogos nas festas de fim de ano no RJ.