Fanzine

Niguém discute que no Brasil hoje zines são sinônimos de amadorismo, certo? E não há problema algum nisso. Ninguem nasce sabendo (eu acho).

O problema é quando o fanzineiro não faz a lição de casa e sai metendo as caras fazendo uma HQ e mandando para todos lerem. Ou pior, vendendo. Perceba, não sou contra fazer um laboratório quadrinístico. Eu mesmo apóio e incentivo iniciativas como o 24 Hours Day, que é um mega-laboratório coletivo. Mas desde que se saiba fazer a distinção e NÃO esperar uma miríade de elogios, fãs e COMPRADORES por conta disso.

Normalmente, antes de se fazer uma HQ, um autor dedicado, realista e com objetivos bem focados estuda a mídia em TODOS os seus aspectos. Se ele é um desenhista ele vai estudar tudo o que puder sobre anatomia, proporção, expressões faciais, linguagem corporal, perspectiva, cenário, arte-final, cores e mais uma série de coisas. E ainda buscará noção de enquadramento e narrativa. Se for roteirista, ele vai ler de tudo, estudar os princípios da estrutura e estética, diálogos, divisão de cenas, sequencias e atos, personagens, conflito, gênero e até gramática.

Antes de começar a pensar em escrever uma história para um público, ele se certifica de que fez bem essas lições.

Mas o fanzineiro afoito, não. Ele assiste alguns animes, vê algumas coisas em comum entre eles, se identifica com uma coisa e outra e aprende a rabiscar um personagem. Então ele acha que dá pra fazer uma historinha com isso. E eu entendo perfeitamente essa empolgação, porque eu mesmo fiz muito disso na minha adolescencia. Fiz minhas cópias de Sailor Moon, Zeoraymer, Doug e Yuyu Hakusho durante as aulas no colégio. E como eu posso dizer para não fazer algo que eu mesmo fiz? Bem, não quero que ninguém perca o tempo que perdi.

Sim, ainda que o fanzineiro considere isso como treino de narrativa e tudo o mais, é uma perda de tempo se ele ainda não fez as primeiras lições de casa. Isso é querer pular etapas. Por que ele quer treinar coisas avançadas das técnicas de quadrinhos se seu desenho ainda está aquém do mínimo para se fazer um trabalho aceitável?

E se o fanzineiro considera tais fanzines como um simples treino, ele admite que tal HQ NÃO é para o publico, pois não se oferece aos leitores um mero “treino”, e sim uma obra pronta e completa para apreciação e entretenimento, sem aquele erro grotesco de anatomia ou aquele buraco na ambientação tirando o leitor de dentro da mágica da narrativa. Não precisa ser perfeito, mas deve ser feito com excelência e livre de erros típicos do amadorismo tão recorrente nos nossos zines atuais.

Outro argumento usados por alguns fanzineiros afoitos cientes de suas grandes limitações e falta de conhecimento e técnica é “Eu fiz apenas por diversão e amor”. Oras, se isso é verdade, então fica mais que comprovado que a HQ não foi feita para o leitor, e sim para si próprio, para a própria diversão e passatempo. Quando não para o próprio ego. Não se pode esperar elogios de um trabalho feito sem pensar no seu público, sem adequar para um grupo específico e sem ampliar as possibilidades de se agradar um maior número de pessoas. É um trabalho egocêntrico, logo não deveria ser postado para outros lerem.

Os profissionais levam a excelência tão a sério que eles fazem e refazem páginas inteiras quando necessário. Os testes e treinos sequer saem do estúdio.

Eu insisto que qualquer trabalho para exibição pública deve ser feito pensando nesse público e o autor deve ser equipado com todas as ferramentas necessárias para agradar as pessoas, e não a si mesmo. E ainda não vi argumentos que me convençam o contrário. Não que agradar o público seja um fardo para o autor – é um privilégio – mas fazer um fanzine às pressas só porque quer se divertir ou treinar NÃO É e nunca será nada mais do que um laboratório, e como tal, deve ser encaminhado apenas para críticos e beta-testers de confiança sem esperar nada além de correções.

#faleimesmo