Publicado por Marco Rigobelli em 18/12/2009 no Ideias Soltas no Ar

Os quadrinhos brasileiros não são um mercado. Nessa primeira década do século XXI está começando a se tornar um, quase que por osmose, dado o fato da quantidade de autores tornar-se tão grande que o mercado estrangeiro não consegue dar conta de sua demanda, entupindo o submundo independente de obras e fazendo-as serem notadas já há tantas que algumas vão eventualmente ganhar a mídia. Isso, por consequência, faz as editoras os notarem, se interessarem e publicarem trazendo-as ao grande público, ou ao menos ao público que give a shit pra isso. Toda essa cadeia de fatos nos trouxe ao que vemos nesse fim de 2009: Um falso mercado.

Hoje temos revistas escritas, desenhadas, colorizadas, idealizadas, arte-finalizadas, publicadas e editadas inteiramente por brasileiros. Tudo aos trancos e barrancos, mas de alguma forma tem que começar.

Calma lá, eu disse editores? Não, esqueçam. Não existem editores de quadrinhos no Brasil, nem um puto sequer. E quando digo editores, não me refiro somente à pessoa que tem o nome abaixo da função supracitada no expediente da publicação. O editor não é só o chefe dos autores, ele é na verdade um deles. O trabalho do editor em uma história em quadrinhos ou em um livro é a de controle de qualidade, já que o único trabalho do escritor, do roteirista e do desenhista é contarem a melhor história que puderem, o ideal é que nenhum deles deva se preocupar com como o leitor vai receber ou entender a história, só em colocá-la no papel. A parte chata, de dar limites, caminhos, idéias e definir um público cabem ao editor. E em qualquer obra literária (lembrem-se, quadrinhos são uma forma de literatura) cabe a ele supervisionar o trabalho e indicar o que está sendo feito certo e o que não deve ser sequer pensado. E não é algo que passa despercebido, uma decisão errada do editor pode comprometer toda a obra.

Joe Quesada que o diga.

E infelizmente, não temos isso aqui no Brasil, nem nunca tivemos, todo esse trabalho cabe aos autores da história que já não sobrecarregados o suficiente com o trabalho de desenvolvê-la, precisam pensar também na logística e no público. Sim, existem aqueles que acumulam essas duas funções por opção própria, mas quero que perguntem para qualquer quadrinhista/escritor se eles querem acumular as funções. Poderá contar nos dedos quantos vão dizer que sim e nos dedos de uma mão quantos são capazes de fazê-lo, mesmo querendo.

O motivo disso se dá ao fato de os únicos editores de quadrinhos que temos serem todos habituados a já receber as revistas estrangeiras prontas. Suas únicas decisões são sobre distribuição, tiragem e tradução. Isso não dá a ninguém a experiência e o conhecimento de mercado necessário para se exercer a função como ela deve ser exercida.

Não que não exista nenhuma pessoa capaz de fazer isso, conheço muitas que conseguiriam com maestria. Mas aí esbarramos em um problema mercadológico:

Não temos obras suficientes sendo publicadas para as editoras contratarem editores de quadrinhos e para esse trabalho, um contrato freelancer não é muito adequado já que o editor precisa pensar pela editora, ele tem que obrigatoriamente defender a camisa. E convenhamos, publicando dois ou três encadernados por ano, ele não teria muito que fazer e se tornaria um elefante branco na folha salarial. Aqui entramos num paradoxo: O mercado precisa de bons editores especializados para crescer, mas precisamos de um mercado ativo para arcar com esses editores.

A saída mais óbvia é um editor que tanto sirva para importados quanto para os nacionais. Ele não acumularia tanto trabalho, só teria que ficar atento aos dois mercados. Fica a sugestão.

E aqui chegamos em outro fato preocupante. O mercado literário brasileiro, fértil em grandes autores, vem sofrendo de um problema parecido. Sim, há ótimos editores aqui, nosso problema reside na internet. Cada vez mais autores tem se deslumbrado com a liberdade que ela proporciona, fazendo-os publicar a obra por conta própria. Isso gera os mesmos problemas já citados. Existe nesse mercado independente obras muito boas, mas que pecam pela falta de um editor, o que é sentido durante a leitura da mesma.

Posso citar coisas como o estilo da narrativa mudando bruscamente de um capítulo para outro, caminhos mal escolhidos para se conduzir personagens e por aí vai.