Eu não entendo o autor de quadrinho nacional. O cara cresce lendo quadrinhos, seja comics ou mangás e quer fazer sua HQ também. Até aí… tudo bem! Mas o sujeito quer fazer IGUAL ao seu gibizinho favorito. Quer dizer, igual não. Ele é criativo – muda os nomes das personagens e a cor das roupas! Ahá! Não contavam com a astúcia dele!

Nesse terceiro artigo da nossa série sobre quadrinho nacional (confira O Famigerado Mercado de Quadrinho Nacional e Criando um Herói para Quadrinhos Brasileiros) quero abordar um pouco mais a fundo a questão da criação.

Como foi dito anteriormente, a solução para um mercado está na criação própria voltada para brasileiros, e a idéia é o embrião da criação. Mas de onde tirar idéias que prestem?

Vou usar o exemplo dos comediantes brasileiros. Eu não sou um grande apreciador do humor, mas devo admitir que alguns humoristas brazucas me fazem rir muito. Nós brasileiros temos a fama de fazer piada da nossa própria desgraça. Não que isso seja um dom, mas, para mim, isso indica que o humorista está antenado com a realidade do Brasil. É piada de todo tipo de coisa do nosso cotidiano: política, futebol, preconceito, pobreza, política, peruas, transporte alternativo, adolescentes, escolas, política, religião, carnaval, apresentadores de programa, enchentes, política, músicos, política… a lista quase não tem fim. E o Brasileiro ri, não apenas porque a piada é boa, mas porque é a própria realidade brasileira. Como diria a Dona Edith: – “é ou num é ou num é? É!!!”

edith-finish5

Dona Edith é um ótimo exemplo do que estou falando. É um quadro da peça de Teatro Terça Insana que brinca com a pobreza na favela. Perceba bem: alguém que não sabe o que é uma favela, provavelmente não vai rir nem entender metade das piadas do quadro. Alguns quadros da Terça Insana não são para qualquer um rir. Falando nisso, sabe aquela fama de que piada de norte-americano não tem graça? Por que será? É óbvio que é porque não estamos contextualizados ao tema da piada em questão.

A idéia é simples assim… Sua idéia tem que partir de algo de fácil reconhecimento do seu leitor. Ele vai ler aquilo e saber do que se trata, assim como um japonês que lê um mangá com estudantes com roupas de marinheiro que usam o ki e tem vergonha de pegar na mão da namorada em público.

Quando um humorista brasileiro faz uma personagem satirizando uma situação ou uma classe ou até mesmo uma pessoa pública, ele não está sendo preconceituoso, como algumas pessoas pensam. Ele está rindo de SI MESMO. Quem assiste e ri, também ri de si mesmo, estão todos rindo de si mesmos porque somos nós que fazemos o país ser essa grande piada, seja com nosso conformismo, seja com nossos votos, nossa omissão ou nossa ignorância. As pessoas riem porque no fundo dizem “é verdade, a coisa é assim mesmo”. Mas o que o humorista está fazendo? Um estereótipo. Mas não um estereótipo universal, mas brasileiro, para brasileiro entender. Ele estereotipa o pobre, o favelado, o político, o adolescente, o rico. É o que o pessoal da Terça Insana faz. Então ele brinca com o estereótipo, desconstrói, cria situações com ele e apenas deixa a personagem agir naturalmente, porque a personagem já tem um comportamento e objetivos definidos. E as possibilidades são quase infinitas.

Assista alguns vídeos da Terça Insana e faça uma lista dos estereótipos que ali são representados. Depois marque com um X os que você conhece bem, o tipo com o qual você convive ou já conviveu. Então pegue a personagem cujo estereótipo você mais conheça e crie uma situação para ela em outro gênero – terror, fantasia, romance, drama. Pegue a dona Edith e jogue-a num planeta de fantasia estilo El Hazard (mas coloque coisas interessantes para o brasileiro, como um mundo onde tudo é cercado de cerveja, praia, ou a total ausência dessas coisas e brinque com isso) e faça a personagem ser ela mesma nesse mundo. Como uma líder comunitária semi-analfabeta que fala “incrontá” ao invés de “encontrar” se sairia se tivesse que salvar um mundo fantástico? E se junto com a Dona Edith estivessem a Irmã Selma, a Leila e a Adolescente? Claro que aí você vai ser tentado a fazer uma comédia, mas faça uma comédia com a fantasia, porque esse é o tema. Ou faça um terror e explore as possibilidades. A irmã Selma é de botar medo, porque ela reza para que algo aconteça a alguém… “E acontece”! Ou uma versão Big Brother do mundo de Mojo. Mas o mais importante é que isso estará voltado para o brasileiro e suas necessidades e vontades. Se a personagem for bem construída e autêntica, o leitor será cativado, vai querer saber o que acontecerá com a personagem no final e vai se importar com ela.

coisinha-finish2

Claro que não é só de personagem que vive uma HQ. É preciso ter uma estória. E nada melhor do que simplificar as coisas. Hoje é muito comum cenários e elementos complexos envolvendo física quântica, magia do caos e etc; mas toda boa estória parte, em sua concepção inicial, de uma premissa simples, seja um sujeito comum que recebe poderes ao ser picado por uma aranha ou seja um moleque traumatizado pela morte dos pais que quer vencer o crime. Simples e próximo do leitor. A partir daí, coloque suas pirações, complexidades e o que mais achar útil, mas a premissa deve ser sempre o mais simples possível. Brinque com as possibilidades e os rumos que o mundo está tomando. Imagine o malandrão da favela recebendo super-poderes por causa de uma pedra de crack mofada! E o poder que ele receberia é o de transformar a realidade de uma pessoa em uma viagem alucinógena!

Mas tudo isso é exemplo. Você não vai fazer suas HQs baseados em personagens humorísticos (e se fizer e for processado por plágio, nem vem me culpar). Você vai observar o mundo a sua volta. Vai observar as pessoas na rua, no trânsito, no trabalho, na escola. Vai viver! Conversar com alguém na fila do banco. Observar como o tipo de pessoa que você quer retratar se veste, age ou se comporta na sociedade. Olhar os objetos que carrega e tentar imaginar como é a vida daquela pessoa, do que ela deve gostar, onde trabalha, apenas com as informações visuais que tem ali. Você vai conhecer pessoas porque não quer fazer personagens vagos e rasos, que não representem em nada o grupo que você escolheu. Não se prenda ao visual. Vá além! Vá à essência das pessoas e suas necessidades, sonhos específicos, carências e objetivos. A identificação não precisa ser apenas através da personalidade ou do visual, mas também do que as pessoas precisam. O simples fato de seus personagens serem humanos em busca de algo, seja o propósito de viver ou o carro do ano,  já é um fator de identificação praticamente universal. Vá mais a fundo na alma do ser humano e você encontrará assunto pra estórias que não acabarão mais. Depois afunile o fator de identificação ao grupo de pessoas a quem você está se dirigindo – sem esquecer que são brasileiros que, na maioria esmagadora, não querem saber de uniformes de marinheiro nem heróis de collant com codinomes ridículos.

Depois de você criar a ambientação (esse assunto será tratado melhor futuramente), o enredo virá da interação desses personagens entre si e essa ambientação é a reação deles, suas escolhas e a conseqüência dessas escolhas que farão a sua estória.

Mas o mais importante de tudo é que não vai adiantar nada disso se sua idéia for vazia, se sua estória for apenas mais uma entre tantas. E é aí que você vai ser diferente de um produto fabricado feito APENAS usando a identificação das personagens para manipular e comover o leitor e prendê-lo ao produto, fazendo-o querer ser o que é mostrado em tais estórias. Este pretenso autor que escreve a vocês e a ComicsLivres repudia tal atitude que transforma as HQs em subprodutos feitos visando única e exclusivamente a devoção do leitor cativado ao personagem (uma marca), o que lhe rouba a identidade e a capacidade de agir por si próprio. Estórias, assim como qualquer outra mídia, feita com tais ferramentas, são poderosas para interferir na vida das pessoas. Você está lidando com gente, pessoas de verdade, que você não fará idéia de como ela vai reagir aos seus personagens. Portanto, importe-se com seu leitor e tenha algo a dizer. Não um discurso, nem um pensamento pronto e pré-formatado sobre qualquer coisa. Mas tenha algo a dizer que o faça pensar, que o faça questionar o mundo em que vive e questionar a si mesmo como parte desse mundo. Não é isso que o nosso humor brasileiro faz? Ao mesmo tempo em que faz rir dos políticos, das loiras burras e das favelas, está dando um enorme grito pedindo para que você olhe como as coisas estão e faça algo a respeito. Pena que as pessoas se contentem em se entreter e deitar a cabeça no travesseiro.

Por isso, antes de mais nada, viva! Respire ares novos, conheça lugares, olhe para as pessoas como você nunca olhou antes. Faça algo inusitado, perceba o mundo e suas maluquices. Só assim você terá sua visão única, peculiar sobre o mundo e as pessoas e, como na profissão do fotógrafo, é a sua visão, seu modo de olhar as coisas, que fará toda a diferença no final. É daí que virão as grandes idéias e as boas eistórias.

Imagens retiradas da apresentação da Peça Teatral “Terça Insana”. Todos os direitos reservados, e tudo e tal.

Mais um velho artigo resgatado do pó e das traças.

Twitta

Twitte-isto-quadrinho