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Ou “Como escrever direito para brasileiros?”

No artigo O Famigerado Mercado de Quadrinho Nacional falamos como a criação voltada ao público brasileiro pode fazer com que finalmente exista um mercado e até mesmo um segmento, uma tendência, um estilo e identidade própria aos quadrinhos nacionais. Agora vamos falar sobre como criar algo que dê conta do recado. Nada de mulheres siliconadas clones de heroínas de comics dos anos 80. Nada de ninjas coloridos. Nada de ficção antiquada com chapéus voadores. Vamos olhar para a simplicidade do herói, povo!

Não podemos simplesmente importar conceitos de heróis de outras culturas, que por sinal levaram anos de evolução para ser o que são hoje, que atendem às necessidades e expectativas de um público do qual você não faz parte.

Entenda: mangá é feito pra japones, comics são feitos pra americanos. Você é um nerd que gosta dessas coisas, mas sua colega do colégio não, e por isso ela ri de você por causa dos seus gibis. Claro que os leitores de HQs cresceram muito, principalmente com a invasão dos mangás, mas ainda é uma minoria. Por isso fazer um fanzine brasileiro com nomes e lugares japoneses simplesmente não faz sentido. Assim você não está escrevendo pra brasileiro nem pra japones – porque o personagem e lugar japones que você coloca não são japoneses nem na Lua. A minoria conhece essas coisas de HQs.

Já a turma da Mônica, todo brasileiro conheçe. E é disso que estou falando. Acho que existe essa lacuna a ser preenchida. No Brasil existem muitos humoristas, inclusive na área dos quadrinhos – que escrevem ótimos textos, por sinal. Mas onde está o herói brasileiro? Aquele que será tão conhecido quanto a Mônica? É possível realizar tal façanha?

Sim, é possível. Mas primeiro, precisamos abandonar os esteriótipos, esquecer um pouco que heróis precisam de músculos e poderes, que mangá precisa de olho grande, que garotas tem q aparecer em um semi-poster pornográfico na capa da HQ, dos uniformes e etc, etc. Vamos tirar toda essa gordura, apetrechos, cores e testosterona. Tire as capas e super-poderes fantásticos, as cores da bandeira e as frases clichês.

O que sobra?

Se no caso do seu personagem não sobrar nada, jogue ele fora e faça o teste com um bom personagem gringo. Como Batman, Homem-Aranha ou Kenshin. O que sobra? O que sobra???????

Sobram os conceitos idealizados de cada autor, resultado de sua própria cultura e experiencia de vida (leia mais sobre criação de personagens que não sejam superficiais). Sobra uma pessoa que poderia existir de verdade, que poderia ser o seu vizinho – ou quase, já que Bruce Wayne, Peter Parker e Kenshin moram um pouco longe de você. Mas poderia ser o vizinho do público original desses personagens. O cara na frente na fila do banco, o sujeito lendo jornal no metrô, qualquer um. O Peter Parker é uma pessoa comum, como eu e você. E por ser uma pessoa comum, é uma pessoa complexa, cheia de sonhos, defeitos, princípios, valores, crenças, dúvidas, amores, rancores, medos e feridas. Ele convive com pessoas igualmente comuns e frequentes no nosso cotidiano. O valentão da escola, a namoradinha, o melhor amigo problemático, a família, e por aí vai. Temos alguém com uma essencia, um passado cheio de traumas e momentos saudosos. Um ser humano. O maior problema que encontro nas HQs brasileiras é a dificuldade de se colocar um ser humano nas páginas pra atuar.

Mas como se faz pra criar algo tão complexo? Tenho que estudar psicologia? Não, não se afobe, pequeno escrevinhador. O que você precisa fazer é trancar um pouco seus mangás e comics no armário – eles te deixam com uma visão gringa e estereotipada sobre as pessoas – e vá ver pessoas brasileiras. Vá ver como eles pensam, falam, andam, agem e reagem, e saiba porque eles são como são. Conheça tipos diferentes de pessoas, converse com elas. Quando estiver em um ônibus, observe bem. Dali mesmo você pode tirar vários personagens para suas estórias. Seja um trocador mau humorado que xinga os passageiros, um velhinho que não sabe onde está indo, um vendedor de doces engraçadinho, uma garota fria e com cara de quem chupou limão.

Todos tem uma estória, e se você observa-los, ver como se vestem, como andam, o que carregam, talvez você consiga saber algo sobre eles. Ou pelo menos imaginar. É um ótimo exercício. Talvez a garota esteja irritada com o vendedor engraçadinho que está dando cantadas horríveis e o trocador brigou com a esposa antes de sair de casa. São pessoas, assim como você. Seus personagens também deveriam ser, e não apenas um cara que solta raio pelos olhos ou que é caladão porque ser caladão é “cool”.

Os esteriótipos são úteis APENAS se estiverem a serviço da essência do personagem, e não vice-versa. Você não deve dizer “ok, vou definir o personagem: Fulano é estressado e se acha mais forte que os outros”. Isso são traços esteriotipados de comportamento, é uma casca, é provavelmente a primeira coisa que o leitor vai perceber, e não deve ser a única coisa. Você deveria pensar “ele tem um sonho de ser um ator famoso, mas por ser gago foi muito ridicularizado desde criança e POR ISSO se tornou estressado e orgulhoso, de modo que se acha melhor que os outros”. Um exemplo bobo (não o use) mas que mostra a idéia. O leitor primeiro vai ver que o cara é estressado o que ele se acha, mas depois vai entender o por quê. E isso faz toda a diferença.

Navegue pela complexidade e pelos trilhos caóticos do comportamento humano. Causa, escolhas e efeitos. O que aconteceu com eles, o que eles decidiram fazer com esses acontecimentos e os resultados dessas escolhas. Isso gera o caráter deles de hoje. ENTENDA o seu personagem, por só assim você vai saber o que ele fará em cada situação que surgir e terá tudo sob controle.

Mas por que tenho que fazer personagens brasileiros? Alguns dizem que é bobagem, mas a magia dos quadrinhos e de todas as estórias está aqui: identificação. Nós escrevemos estórias sobre seres humanos e para seres humanos. Só esse fato já gera uma identificação. Mas quanto mais você gerar essa identificação com um coletivo específico – no nosso caso, com o brasileiro – mais a leitura será intensa e atraente, porque o leitor vai querer saber o que acontecerá com o personagem. “Será que ele conseguirá vencer o vilão e salvar o bairro/cidade/mundo?” Quando o personagem se torna real na mente do leitor e este se identifica com aquele, eles se tornam próximos; um vínculo é gerado e, dependendo do grau de intensidade da sua estória, o personagem ficará na mente do leitor por um bom tempo.

Até hoje me lembro do impacto que foi na minha mente quando vi o filme A Fortaleza. Eu era criança, e o filme é sobre crianças sequestradas por bandidos MUITO maus com máscaras de bichinhos. O chefe era o Papai Noel. Eu fiquei com trauma de Papai Noel, o filme realmente me deu medo. Mas o que aconteceu? Eu me identifiquei com as crianças, porque eu era criança, parecido ligeiramente com um deles e lá no fundo eu queria ter tido uma aventura como aquela. Por que? Porque aquelas crianças bobas e medrosas no final se tornaram salvagens, espertas, e mataram os bandidos; criaram uma armadilha engenhosa e mutilaram o Papai Noel. Aquilo foi homérico. Eles eram heróis mirins. Isso me fez querer ser herói também, que dividia um segredo e uma aventura com um grupo de amigos que antes não se davam bem e se tornaram proxímos e confidentes. Mas isso tudo era devido ao fato de eu querer ser importante e corajoso. Foi de encontro com meus sonhos e desejos. Fiquei dias com aquilo na mente. O mesmo ocorreu com História Sem Fim, entre tantos outros.

A identificação é de suma importância. Não precisa ser com o personagem principal, mas procure entender como são os brasileiros e faça um brasileiro pra que todos vejam e SAIBAM que é um brasileiro sem ter que carregar a bandeira do Brasil (ô coisa brega). Faz um moleque que pareça aquele metido a valente da escola mas que não era valente coisa nenhuma, ou a garotinha inteligente e tímida que não dava cola pra ninguem. Ou aquela vizinha filha de pastor evangélico metida a rebelde. São experiências comuns ao brasileiro, coisas que ficam no insconsciente coletivo.

Aprofunde-se nas etnias, não faça um monte de gente parecida. Aqui tem de tudo. Observe a influencia da família sobre as pessoas, o poder aquisitivo, o estilo de vida, o tipo de colégio que estudam. Olha para as ruas e os shoppings, sua história pode estar lá, te esperando. Uma história em cada pessoa que passa por você . Não seja preguiçoso. Traga a vida real para dentro de suas HQs e, consequentemente, para dentro da mente do leitor. Se importe com o personagem. Ele precisa aprender e evoluir como ser humano.

E, quando você buscou isso tudo para seu personagem, você finalmente irá descobrir por que ele é um herói. Pode ser por um sentimento de culpa, como o Peter Parker, ou vingança como Batmam, um limitador moral. Mas o importante é você saber o que faz dele um herói, qual é o fator determinante que fará dele um mocinho e não um bandido ao receber os poderes ou habilidades quaisquer. E o mesmo vale para os bandidos. Não serve “ah, ele é bom e o outro é mau”. Ninguém é bom nem mau, apenas agimos conforme os fatos e nossas escolhas. Algo acontece e fazemos algo a respeito. Algo nos move, algo impulsiona.

E depois? Aí entra a Jornada do Herói. Mas isso fica pra outro dia (claro que você pode ir pesquisar o assunto até lá, né?)

#FicaADica

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