Ultimamente muito se tem discutido sobre (a falta de) mercado de quadrinhos nacionais. Fala-se sobre vários problemas sob diversas perspectivas. Uns apontam a falta de oportunidade nas editoras; outros alegam que não há desenhistas e roteristas de nível profissional com qualidade suficiente para causar interesse em um editor. Outros atacam os leitores, por comprarem muito material estrangeiro e depreciarem o artista nacional, por não se interessar em comprar fanzines, por dizer que as HQs nacional são ruins.

Mas afinal, onde está o verdadeiro problema dos quadrinhos nacionais?

Bem, vamos analisar os argumentos mais comuns. O que vem logo de cara é a questão das editoras. “Eles não se interessam”, choramingam os quadrinheiros, sem sequer ir à luta porque nem sabem por onde começar. Mas isso não é bem verdade. Há editoras interessadas em bom material nacional, mas elas encontram problemas como falta de profissionalismo, prazos não cumpridos, baixa qualidade… ou seja, encontrar algo que valha a pena investir com a garantia de um bom retorno é difícil. Também temos que parar de pensar em editoras grandes e olhar para as pequenas. A Conrad já publicou brasileiros, assim como a JBC e a Editora On Line (que, apesar do nome, imprime em papel), mas há outras menores que se interessariam se vissem um material que valesse a pena. Mas esse material parece não existir.

Também precisamos mudar essa mentalidade de que quadrinhos PRECISAM ser impressos. A web-comic veio pra ficar, e a maioria dos leitores de quadrinhos (por maioria entenda “adolescentes”) já nasceu acostumada a ler scans na tela do monitor. Eles não são como o pessoal mais velho que reclama: “eu compro no papel porque sou contra a pirataria e ler no monitor dá dor de cabeça”. Pra essa gurizada não faz muita diferença. E isso se tornará cada vez mais comum. Vivemos em uma época em que várias mídias surgem a toda hora, possibilitando diversas formas de se distribuir uma HQ em formatos diferentes e inovadores (no Japão vende-se mangá até via celular, coisa que só agora tá chegando aqui). A própria linguagem das HQs está prestes a evoluir para algo que não haverá mais retorno – ou você entra na nova onda, ou será um ultrapassado escrevendo para ultrapassados. A web também permite comercializar as HQs e produtos derivados de forma rápida, prática e segura, com a vantagem de que você é o editor, autor, planejador e marketeiro. Ou seja, não dá mais pra colocar a culpa nos editores. Quem quer, faz. Quem é bom, faz bem feito.

Depois vem a crítica aos desenhistas profissionais (e amadores) que temos. Há quem diga que bons desenhistas brasileiros são raros, e os poucos que existem já estão trabalhando no exterior. Ora, isso não tem cabimento! Basta uma boa garimpada no Deviant Art que você encontra gente boa (no meio de muito lixo) sendo que a maioria dos “talentos brutos” precisa apenas de uma boa orientação de know how ou uma atualizada, porque é muito fácil você treinar anos e seu estilo acabar sendo ultrapassado, antiquado demais pro mercado de hoje, nesse mundo em que tudo evolui, PRINCIPALMENTE a linguagem visual. Você também pode olhar a publicidade brasileira, uma das melhores do mundo, recheada de artistas – desde cartunistas a artistas de 3D – que, em alguns casos, sonhavam em ser desenhista de quadrinhos, mas não puderam realizar o sonho e foram ganhar a vida na propaganda. E, claro, tem a galera que está trampando no exterior. “Estão ganhando a vida porque no Brasil desenhista não tem vez”, dizem os defensores. Mas a realidade não é bem essa. Mas calma, já chegamos lá.

Então, menciona-se os roteiristas. “Não temos roteiros originais, só cópias”, dizem. Se você é um leitor de fanzines, provavelmente você será tentado a acreditar nisso, mas olhe para outros lugares – o cinema nacional, embora meio capenga, sempre teve seus bons momentos. O teatro é o refúgio dos pretensos escritores, e temos por aqui bons exemplos. Estariam também os candidatos a roteiristas de HQs migrando para outras formas de entretenimento mais rentáveis? De qualquer forma, fica óbvio que o brasileiro não tem uma doença genética que o torna incapaz de escrever um bom roteiro. Mas também é óbvio que os grandes inimigos do roteirista de quadrinhos tupiniquim são a preguiça e o ego. A preguiça porque ela impede o sujeito de estudar, ir atrás de informação sobre o ofício, de observar o mundo e o que nele acontece, de viver e captar a vida com um olhar único, que é o que torna um roteiro valer a pena. O ego porque, já que o cara já é “bom” o suficiente pra arrancar elogios dos amigos, pra que encarar a preguiça e fazer alguma coisa da lista acima?

Mas o potencial está aí! Eu vejo em vários lugares pessoas que escrevem estórias que, apesar de recheadas de clichês, são bem conduzidas. Ou vice-versa. Mas ela não vai atrás de se aperfeiçoar. E quando vai, se esbarra no maior problema de todos, que é o que realmente atravanca os quadrinhos nacionais:

Criação!

A criação é tudo. E a idéia é o embrião da criação. O grande problema é que o quadrinhista nacional não quer saber de criar. Ou quando quer, não sabe e não reconhece isso pra melhorar. Criam coisas que não funcionam porque vem tudo de um mundo particular, uma visão fechada e pessoal sobre uma vida que não é comum, não existe identificação com o leitor. Ou criam “cópias autenticas” de material gringo. Criemos, pois.

Tudo parte de uma boa idéia; sem isso, desista. Não escreva. A idéia irá definir se sua criação será válida ou não, se resultará em uma estória que vale a pena ler ou não. Não é a técnica, a narrativa, muito menos o desenho. É a bendita idéia. E a partir da idéia vêm personagens, vem ambientação, vem enredo, vem o seu universo. E é aí que entra a sua capacidade de criar algo que cativa as pessoas, que prende a atenção e o interesse do leitor no que vai acontecer com seus personagens. Essa é a magia dos quadrinhos.

Para entender melhor a idéia, vamos pegar o exemplo dos ingleses. Os caras, lá pelo início da década de 80, como Alan Moore, saíram da Inglaterra atrás do sonho de trabalhar com heróis famosos como Super-Man. Moore por exemplo recebeu o Monstro do Pântano pra reciclar o personagem e o que ele fez? OUSOU, balançou as estruturas, ignorou as fórmulas e os modelos pré-estabelecidos, os conceitos e preceitos dos quadrinhos americanos que já estavam virando uma caretice sem tamanho. O mais importante é que, uma vez garantido seu cantinho no mercado, ele CRIOU suas próprias coisas. Ele já vinha fazendo isso na Inglaterra, mas quando criou Watchmen, ele garantiu seu lugar ao sol com um único produto. Se ele ficasse apenas escrevendo Monstro do Pântano e Super-Homem, rapidinho alguém ia escrever esses personagens melhor que ele (sim, isso é possível, principalmente no caso da DC que sempre teve um certo receio das loucuras do Moore com os personagens mainstream) e ele iria ficar só nisso de procurar um título pra trabalhar. Mas ele criou seu próprio título, e criou bem o suficiente pra ser lido. Outro exemplo é Stan Lee. Não é a toa que a Marvel era conhecida como “Casa das Idéias”. O homem criou seus personagens, encontrou o que ele poderia falar para os leitores DAQUELA ÉPOCA, NAQUELE PAÍS e isso dura até hoje, com incontáveis produtos licenciados. Criações próprias. Neil Gaiman criou Sandman e vive até hoje garantido por causa de uma série que nem durou tanto tempo.

Claro que não é apenas criar. Estamos falando de alguns dos maiores representantes das HQs ocidentais. Mas você não precisa ter a “genialidade” desses autores. Precisa apenas seguir os passos, porque o caminho já foi trilhado. É olhar para o mundo tal qual ele é, com seus olhos, não com os óculos que a mídia, a TV e os próprios quadrinhos te dão, mas sua própria visão. Olhar pras pessoas que vão ler e fazer parte de suas estórias – brasileiros; seu vizinho, o padeiro, o motorista do onibus, o nerd da escola (principalmente o nerd da escola). A partir disso, você cria seus personagens – é de personagens que uma estória é feita. INVISTA neles, alimente-os, cuide deles, dê-lhes vida, dê-lhes um passado, um objetivo, um sonho específico, até que ele possa existir na mente do leitor como alguem próximo. Poderia ser o vizinho. Poderia ser ele mesmo. Crie ambientação, não um simples cenário genérico. Crie a cidade onde os personagens moram. Como o lugar influencia as pessoas? Qual é o clima? Que tipo de gente habita ali? Faça o lugar ser real, assim como os personagens.

No Brasil tem muita gente desenhando aqui e ali, mas poucos estão criando. Não precisa criar aqui no Brasil. Se o Deodato é bem recebido nos EUA, por que ele não cria as coisas dele por lá? O emprego na Marvel/DC dura pouco, mas a boa criação é eterna. No Brasil existe um bom exemplo disso. Maurício de Sousa. Ele não inova (nem mesmo quando publica “mangá”), é careta, mas por que ele está aí até hoje? Ele tem centenas de personagens, talvez isso seja uma boa pista.

Temos também os péssimos exemplos. Aos montes. Não preciso citar, mas criações que limitam-se a clonar mulheres peitudas e mutantes bombados amenicanizados segurando uma bandeira do Brasil, como quem quer dizer “parecemos heróis de HQs americanas mas somos brasileiros com orgulho” NÃO são válidas, assim como ninjas coloridos, samurais ou neguinho de armadura que grita o nome do golpe. Isso beira o plágio descarado. Brasileiro não se liga em chakra nem em lutas orientais (estou falando da massa, e não dos nerds como você e eu). Precisamos encontrar o que cativa, o que ganha o publico brasileiro em geral. Que tipo de HQ venderia como pão nas bancas (para os que ainda acreditam em bancas), livrarias ou internet?

A grande verdade é que nessa época que vivemos, com muita produção amadora e mercado inexistente, nós, os criadores das próximas estórias, temos a oportunidade de lançar os fundamentos dos quadrinhos nacionais. Muita gente me diz que muito papo na net não leva a nada, que devemos é produzir e produzir. Eu discordo! Acredito que uma boa troca de informações e idéias gera um (in)consciente coletivo que poderá dar força e formato ao que todos tentaram e nunca conseguiram: criar o autêntico e funcional herói brasileiro.

Bom, já que entendemos que o segredo está na criação (e se não entendeu, “pobrema”), nos próximos artigos procurarei explorar como criar algo que preste. Até lá, tentarei também aprender como escrever um texto mais organizado.

*Publicado originalmente por mim no Comics Livres em 20/02/2009. Revisado e atualizado.

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